Porque é que o futebol nos fascina tanto? O que há num jogo que prende a atenção de milhões, que emociona, que desperta paixão e pensamento? Talvez a resposta esteja na própria natureza humana. Como escreveu o historiador e filósofo Johan Huizinga, muito antes de sermos construtores ou pensadores, já éramos jogadores. O homo ludens, diz ele, antecede o homo faber e o homo sapiens. Jogar é um ato primordial, presente na origem da cultura, da linguagem e da organização social. Talvez por isso o futebol não seja apenas um desporto, mas também um espelho da nossa condição humana.
A paixão pelo futebol acompanha-me desde cedo, tanto como adepto como praticante. No futebol e no futsal, vivi experiências que me ensinaram mais do que técnica ou esforço físico, aprendi a colaborar, a lidar com a pressão e a tomar decisões rápidas. Só mais tarde, com a filosofia, compreendi o sentido mais profundo dessas vivências. O desporto é, de facto, uma escola de pensamento.
Sempre admirei Johan Cruyff como jogador e pela sua elegância em campo, mas aquilo que mais me marcou foram as suas ideias sobre o futebol. Herdeiro do espírito do futebol total do Ajax de Rinus Michels, Cruyff não se limitou a aplicar um sistema, deu-lhe uma dimensão nova e mais profunda. Acreditava que a inteligência devia prevalecer sobre a força, que o jogo devia ser simplificado para se tornar belo, e que a posse de bola era mais do que uma estratégia, sendo uma forma de expressar ideias. Dizia: “Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que há.” e reforçava essa ideia ao afirmar: “A técnica não é dar mil toques na bola, é saber o que fazer com ela num segundo.” Com esta visão, o futebol ganhou uma dimensão humana e tornou-se uma arte coletiva, em que vencer só fazia sentido se houvesse harmonia, criatividade e beleza.
Essa herança encontrou continuidade em Pep Guardiola, seu discípulo no Barcelona, que acrescentou reflexão e sensibilidade ao legado. Guardiola foi além do simples treino, procurou compreender a lógica profunda do jogo e a forma como este se relaciona com a vida. Estudou, dialogou com filósofos como Miquel Martínez e defendeu que pensar o jogo é tão essencial como praticá-lo. Quando vejo as suas equipas jogar, sinto que tudo acontece de forma natural: a bola circula com ritmo, os jogadores movem-se em sintonia e cada jogada parece nascer de uma inteligência coletiva.
Em Portugal, essa linha de pensamento foi aprofundada pelo Professor Manuel Sérgio, pioneiro na reflexão filosófica sobre o desporto. A sua célebre frase “sem pensamento, não há jogo” tornou-se quase um lema para quem acredita que o futebol pode e deve ser mais do que competição física. Tive a felicidade de assistir a algumas palestras do Professor Manuel Sérgio e sempre soube reconhecer nele a capacidade de dignificar o desporto como fenómeno cultural e ético, cuja influência permanece viva em muitos contextos de formação e liderança desportiva.
A partir desta visão, comecei também a levar estas ideias às escolas. Sou muitas vezes convidado para realizar workshops de Filosofia e Futebol com alunos do secundário, mostrando que o jogo exige lógica, emoção e liderança. Estas são competências essenciais que não se limitam ao campo de jogo, estendendo-se à vida pessoal, académica e profissional. O futebol torna-se assim uma linguagem de aprendizagem capaz de educar corpo e mente em simultâneo.
Dessa forma, faz ainda mais sentido recordar Hans-Georg Gadamer, filósofo alemão que refletiu profundamente sobre a natureza do jogo. Nas suas palavras, “o ser do jogo não se realiza no jogador, mas envolve-o. O jogador entra no jogo, mas o jogo também joga com ele.” Para Gadamer, o jogo é uma forma de conhecimento porque nos retira do quotidiano e nos envolve numa dinâmica que nos revela algo de novo sobre o mundo e sobre nós próprios. Quando jogamos, não apenas fazemos algo, somos transformados por aquilo que fazemos.
Acredito que a grandeza de um treinador ou de um jogador não está apenas nos títulos que conquista, mas sobretudo na sua capacidade de formar mentalidades, de inspirar equipas e de fazer com que o jogo seja compreendido de forma mais profunda e humana.
Por isso, deixo esta pergunta como convite à vossa reflexão desta semana:
- Ainda jogamos para celebrar a beleza do jogo ou apenas para satisfazer a ânsia da vitória?