A tragédia recente ocorrida em Lisboa, no Elevador da Glória, em que a morte se fez presente de forma abrupta e cruel, deixou-nos suspensos entre a perplexidade e a dor. Não foi apenas um acontecimento localizado, restrito aos envolvidos, mas um momento coletivo em que a cidade inteira, e com ela o país, se viu confrontada com a vulnerabilidade extrema da condição humana. Ao depararmo-nos com uma morte tão inesperada, regressa inevitavelmente a interrogação que acompanha a humanidade desde sempre: será o sofrimento necessário na vida e que sentido pode haver em sofrer?
Perante choques tão bruscos, somos forçados a abandonar a ilusão de que a vida é estável e previsível, pois quando o sofrimento aparece percebemos que a existência nunca se apresenta como um percurso regular e sem sobressaltos. Por exemplo, a perda dos meus pais mostrou-me de forma irreversível que a dor não é uma abstração distante, mas uma presença concreta que se entranha no quotidiano, deixando ausências que nenhuma palavra consegue preencher. Do mesmo modo, a morte trágica do meu primo Rui, em Chaves, atropelado com apenas dezassete anos, enquanto passeava de bicicleta com um amigo, deixou-me atónito perante a finitude e a vulnerabilidade da vida humana. Essas experiências, que ainda hoje permanecem vivas em mim, ensinaram-me que a dor não se explica e que as lágrimas vertidas diante do sofrimento não revelam fraqueza, mas antes a força do amor que nos liga à vida e aos outros.
Não devemos, porém, cair na tentação de idealizar o sofrimento como se fosse em si mesmo pedagógico, pois há dores que se tornam quase intoleráveis, tragédias que anulam qualquer possibilidade de explicação e feridas que resistem ao esquecimento. Nessas horas sentimos o vazio de não haver palavras que consolem. Ainda assim, a filosofia lembra-nos que a finitude é a nossa marca e que a morte, única certeza, nos recorda a brevidade da vida. Sofrer é descobrir esse limite e aceitar que nada nos pertence para sempre, a vida é um bem frágil e efémero.
É perante a dor que percebemos como ela nos pode ferir, mas também como pode aproximar-nos e despertar gestos de cuidado. Quem passa pela experiência de cuidar de um doente sabe como a dor pode gerar ternura inesperada, quem perdeu alguém próximo descobre como a memória se transforma em presença silenciosa, e quem conheceu a solidão aprende a reconhecer o valor de um simples gesto de amizade. É nesse confronto com a dor que a filosofia se revela particularmente inspiradora, oferecendo-nos ensinamentos como os de Nietzsche, que lembrava que o que não nos mata nos torna mais fortes, não para exaltar a dor em si, mas para sublinhar a capacidade humana de lhe dar resposta e reinventar a vida a partir da perda. Também os estoicos recordam que não controlamos os acontecimentos exteriores, mas apenas a forma como lhes respondemos, convidando-nos a praticar a serenidade e coragem mesmo quando tudo parece desabar.
Quero destacar aqui um conceito que emerge diante destas situações-limite, o absurdo, e convidamos os nossos leitores a refletirem sobre o seu significado. O absurdo interpela-nos quando procuramos razões e só encontramos silêncio, quando a dor nos atinge e o mundo parece indiferente à nossa necessidade de sentido. Camus é talvez o filósofo que melhor nos ajuda a compreender a sua natureza, afirmando que “o absurdo nasce deste confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo”, e em acontecimentos como o da Glória essa fratura torna-se evidente. Sou a concordar com o filósofo humanista Camus, para quem a saída não está em negar o absurdo nem em produzir respostas fáceis, mas em aceitá-lo e, apesar dele, afirmar a vida. O absurdo não é um refúgio, mas uma exigência, e é nesse confronto claro com o silêncio do mundo que ele se mostra em toda a sua força, obrigando-nos a escolher entre desistir ou continuar a viver.
Em última análise, não se trata de concluir se o sofrimento é necessário ou dispensável, mas de aceitar que ele faz parte da vida e de reconhecer que nenhum de nós lhe escapa, lembrando sempre, memento mori, que somos finitos.
Convidamos os nossos leitores e todos os que buscam sentido para a existência a que, nas salas de aula, no trabalho ou em família, permitam que, ao longo dos próximos dias, a pergunta que vos deixo interpele cada um e abra caminho à reflexão e ao diálogo.
Será o sofrimento apenas limite ou também possibilidade?