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CONSTRUIR A IGREJA COMO CASA DE PAZ

Ao longo dos séculos, particularmente pela voz dos Concílios e dos Papas, a Igreja foi sempre encontrando expressões que respondiam, com atualidade, às exigências dos tempos. Embora possuidora de uma doutrina que muitos consideram imutável, o Espírito ia suscitando formas novas de a expressar, promovendo iniciativas renovadas. Cada época ficou, assim, marcada não apenas por formulações doutrinais solenes, mas também por palavras que imprimiram ritmo e geraram ousadia. Congregaram comunidades e propuseram objetivos concretos aos cristãos mais conscientes. Trata-se de um património intelectual que se foi enriquecendo com o intuito de tornar a Igreja sinal de salvação e instrumento programático de resposta a anseios e esperanças.

Nos tempos mais recentes, este património tem-se apresentado mais variado, tornando difícil escolher palavras que sintetizem as preocupações e as orientações dos Papas. Creio, contudo, não me afastar da verdade ao afirmar que a palavra paz emerge como recorrente. Não se trata apenas de contemplar o mundo e de denunciar as atrocidades da guerra que marcam os nossos dias; pretende-se, sim, que a paz penetre na vida dos cristãos e se manifeste no dinamismo das comunidades. Desde o nascimento de Cristo, esta promessa acompanha a missão da Igreja. Cabe-lhe fazer com que os seus fiéis experimentem a paz – interior e exterior – e se tornem obreiros deste dom a oferecer ao mundo.

Uma palavra única, mas com aplicações múltiplas. Neste tempo de férias, convido os leitores a uma reflexão pessoal, familiar e comunitária sobre esta temática. O mundo assim o exige. Uns oferecem a guerra; outros indicam que o caminho deve ser outro.

O Papa São João Paulo II, na sua carta do início deste milénio, foi particularmente programático ao deixar duas palavras que exigem empenho concreto: “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis aos desígnios de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (NMI 43). A motivação permanece: ser fiel à mensagem e responder ao que o mundo, talvez inconscientemente, espera. A palavra de ordem para este milénio a assumir no quotidiano deverá, pois, ser: tornar a Igreja uma “casa” que, ao sê-lo verdadeiramente, gerará e oferecerá comunhão, não divisão ou conflito. O que se experimenta no seu interior transborda, e o que é pequeno transforma-se em fermento para uma imensa massa em levedação.

Não é este o espaço, nem disponho de tempo para expor detalhadamente os conteúdos destas três notas que o Papa apontou como caminho para o terceiro milénio. Com alguma ousadia, mas consciente de que a família deve ser uma verdadeira “Igreja doméstica”, apelo ao leitor para que não torne esta leitura inócua, mas a transporte para o seu ambiente familiar, confrontando-se com estas três palavras: “casa”, “escola”, “comunhão”. Creio que tal exercício não faria mal a ninguém, e que este tempo de férias poderá proporcionar ocasiões propícias para o realizar.

O Papa Francisco concretizou esta ideia de forma eloquente quando, recentemente, se encontrou com os bispos italianos e lhes propôs algumas urgências pastorais. Uma delas soava assim: “A Igreja não pode deixar de ser, em cada território, espaço de reconciliação, ‘casa de paz’, onde se aprende a desarmar hostilidades e a cultivar a justiça e o perdão.” Pode custar muito, mas é da família que partiremos para o território, das comunidades paroquiais para o país e, deste, para o mundo inteiro.

Surge aqui um problema difícil de assimilar: o fenómeno da guerra é incompreensível. No entanto, existe e condiciona a vida de toda a humanidade. A responsabilidade poderá parecer de alguns, mas não devemos, como humanidade, esquivar-nos ao nosso papel. Urge construir uma cultura da paz, e todos, sem exceção, somos intérpretes de uma responsabilidade insubstituível. O mundo deve ser “casa de paz”. Porém, só o será se existirem muitas “casas de paz”, e se os cristãos se empenharem na sua construção, aprendendo a desarmar pequenas hostilidades para cultivar uma justiça verdadeiramente à medida do ser humano, e um perdão exercido, diariamente, nas pequenas e grandes coisas.

Também aqui emergem palavras que devem ser descodificadas existencialmente: desarmar, hostilidades, justiça, perdão. Deixo este trabalho para o leitor.

Desejo que agarrem na palavra “casa” e façam dela a concretização da vontade de Deus para o hoje, respondendo às verdadeiras necessidades dos homens e mulheres que sofrem os horrores da guerra.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

5 julho 2025