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Viver a piedade popular

 



 

Os meses de verão estão, tradicionalmente, marcados por inúmeras devoções que expressam uma piedade popular que importa preservar, mas também incrementar, desde que purificadas. O Papa Leão XIII já abordou este tema com grande clareza. Precisamos de subsídios que nos ajudem a renovar a nossa relação com Cristo. As devoções a Cristo, a Maria e aos santos são experiências acumuladas que não podem tornar-se um mero tradicionalismo, ou seja, práticas feitas por rotina ou hábito, individualmente ou em comunidade. Como seria importante que as festas fossem refletidas e repensadas!

Creio que, de todas as devoções, a do Sagrado Coração de Jesus ocupa um lugar peculiar. O Papa Francisco pretendeu sublinhar exatamente isso, em consonância com a espiritualidade dos padres jesuítas. Trata-se de uma devoção que se desenvolveu especialmente a partir das aparições do Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, em Paray-le-Monial, no final do século XVII. Uma devoção que foi profundamente influenciada por São Francisco de Sales, com todo o seu entusiasmo e convicção. Já antes, muitos santos se deixaram entusiasmar por esta devoção, cada um à sua maneira.

Nos tempos atuais, deveríamos sentir a necessidade de ler a quarta encíclica do Papa Francisco, Dilexit nos – “Amou-nos” –, datada de 24 de outubro de 2024. Todos ganhariam com isso: sacerdotes e leigos, sozinhos ou em grupo. Julgo que o mês de junho poderia ser o momento ideal para uma leitura pública desta encíclica, mesmo que fosse necessário deixar de lado outros livros anteriores, muitas vezes marcados por um excessivo sentimentalismo e incapazes de penetrar no verdadeiro significado da fé.

Não me atrevo a fazer comentários teológicos profundos. Quero apenas chamar a atenção para um aspeto sempre presente nesta devoção: a reparação. O Papa Francisco dedica-lhe um conjunto de números (181–190) na encíclica. Cada um deles aborda realidades atuais que merecem reflexão, especialmente em tempos de eleições. Bastam os títulos para provocar o pensamento: A reparação: construir sobre as ruínas; sentido social da reparação ao Coração de Cristo; reparar os corações feridos; a beleza de pedir perdão.

Mais do que comentar, quero convidar à leitura, à meditação e, sobretudo, à ação, a partir de palavras já escritas por São João Paulo II:

“Entregando-nos em conjunto ao Coração de Cristo, sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e pela violência, poderá ser construída a civilização do amor tão desejada. O Reino do Coração de Cristo implica certamente que sejamos capazes de unir o amor filial para com Deus ao amor ao próximo. Pois bem, é esta a verdadeira reparação pedida pelo Coração do Salvador.”

Junto a Cristo, sobre as ruínas que o nosso pecado deixou no mundo, somos chamados a construir civilização do amor. Para o Papa Francisco, a verdadeira reparação é o desejo de Cristo, que precisa das mãos humanas e de corações purificados para reconstruir um mundo que deveria ser de beleza e de bondade.

Na verdade, é imperativo reparar as brechas numa sociedade que deveria ser mais justa e fraterna. Mais do que nunca, importa reparar. Há grandes coisas que fogem às nossas competências, por mais nobres que sejam os nossos sonhos. Contudo, sabemos que convivemos com situações e estruturas que, com um pouco mais de empenho, poderiam transformar-se. Bastaria que cada um reparasse o que está desalinhado na sua vida, que olhasse com atenção para o lado e acreditasse na revolução das pequenas mudanças.

Estou certo de que, se dessemos as mãos, com sinceridade e sem interesses pessoais, olhando de frente para o nosso pequeno mundo e assumindo a responsabilidade que nos cabe, a civilização do amor mostraria a sua força, e o mundo tornar-se-ia um espaço de harmonia, de concórdia e, sobretudo, de paz. Por isso, ouso dizer: precisamos de ser reparadores da sociedade para, então, podermos oferecer ao Coração de Jesus gestos que manifestem o desejo de reparar um coração ofendido quotidianamente. Onde estará a força reparadora da devoção ao Coração de Jesus?

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

28 junho 2025