A eleição de Leão XIV dá-me oportunidade de partilhar, uma vez mais, uma convicção. Nos momentos históricos de grandes mudanças, surgem sempre desejos por parte das pessoas e comentários sobre as orientações definidas. Uns querem que se confirme o caminho que tem vindo a ser percorrido; outros suspiram por mudanças que possam satisfazer as suas visões pessoais sobre a Igreja e a sua missão.
Não ouso interpretar o itinerário que seguirá o novo Papa. Sabemos que foi acolhido favoravelmente por crentes e não crentes, não só pelas suas palavras, mas, sobretudo, pelo seu modo de ser, de se apresentar e de emocionar. Trará alterações ao governo da Igreja? Inevitavelmente, o seu cunho pessoal far-se-á sentir nas decisões futuras. Parece-me, porém, que os sinais indicam a continuação do seu caminho pessoal, reforçando as orientações e normas com a novidade do Espírito. Serão complementares ao percurso que a Igreja vinha trilhando, e terão a originalidade que o seu ministério episcopal já manifestava.
Gostaria de falar daquilo que, interiormente, o foi motivando ao longo da sua vida sacerdotal e episcopal, porque as mudanças exteriores nascem daquilo que preenche o interior.
Por isso, recordo o lema que escolheu, confirmando algo que já anteriormente sonhava. Este lema, repetindo o que já o motivava, deu-lhe, assim entendo, nova força para prosseguir o caminho sinodal, acrescentando-lhe e sublimando a convicção de que a unidade, nas suas exigências, se deverá explicitar — algo que vem enriquecer um caminho já percorrido e que talvez careça de algo novo.
A sinodalidade corre sempre o risco de se tornar apenas uma estratégia, um método para discernir caminhos novos no Espírito Santo. Falou-se muito de espiritualidade sinodal; porém, importa descobrir o que isto implica. Só a unidade assegura o que deve ser prévio e sublinha que, antes de encontrar o que importa fazer em conjunto, impõe-se experimentar a realidade de “ser um” entre nós, como algo prioritário e condicionador de tudo o resto. A comunhão, a participação e a missão só serão profundamente eclesiais quando forem marcadas por uma unidade colocada, antes de tudo, na lógica daquilo que São Paulo afirma: «Ante omnia mutuam et continuam caritatem».
Só através da unidade vivida e testemunhada se poderá concretizar uma das primeiras intenções que Leão XIV manifestou na sua apresentação ao mundo: “A Igreja deve ser cada vez mais cidade colocada sobre o monte, arca da salvação que navega sobre as ondas da história, farol que ilumina as coisas do mundo.”
Neste mundo de “ateísmo prático”, perante enormes e particularmente novos desafios, a Igreja deverá ter um rosto que se afirme — talvez silenciosamente, mas visivelmente — colocada no alto do monte, verdadeira arca nas águas agitadas de um mundo em escuridão, onde se imporá como farol que indica outros caminhos.
Imagino que seja esta a proposta que o Papa reforça ao retomar o seu lema episcopal. A Igreja deve ousar descodificá-lo e caminhar com aquilo que o Papa pretende transmitir através de uma espiritualidade que continua a ser referência de vida. A sua formulação latina pode parecer confusa e de difícil compreensão: «In illo uno unum». Sabemos que esta expressão foi extraída de um sermão de Santo Agostinho, onde ele afirmava, com toda a clareza, que, embora nós, cristãos, sejamos muitos, no único Cristo somos um só. Trata-se de acreditar no uno de Cristo, para viver o nosso uno. Porque Ele é um, nós somos um. Não se trata de duas realidades distintas e incompatíveis, mas que encerram o mesmo conteúdo e revelam a grande originalidade do cristianismo perante o mundo, seja ele religioso ou secularizado.
Não há dúvidas quanto a esta interpretação. Recorda quem conhece de perto o Papa Leão que ele frequentemente dizia: “Para mim, como agostiniano, promover a unidade e a comunhão é fundamental, como Santo Agostinho insistia.” A Regra de S. Agostinho é muito clara.: “A motivação principal da nossa vida em comum é vivermos harmoniosamente na casa e termos um só coração e uma só alma que procuram Deus.” A comunhão não é considerada em abstrato como instituição ou organização, mas concretamente, como o amor por uma pessoa: o nosso próximo.
Não posso deixar de referir um outro pormenor, presente nas armas papais. Nelas, há um coração trespassado por uma flecha, sobre um livro fechado. Diz-se que este elemento pretende sublinhar o que Santo Agostinho afirmou ao descrever a sua conversão: “Vulnerasti cor meum verbo tuo.” — “Feriste o meu coração com a tua Palavra.” A Igreja não precisa de procurar muito fora. Possui o tesouro explicativo dentro de casa. Basta escutá-lo e mostrar uma paixão renovada pela sua permanente novidade. Ao chamar a atenção aos cardeais da importância da Evangelii Gaudium estava a recordar” a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira”(N.1) e que só “ Jesus Cristo pode romper com os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-lo” e “surpreender-nos com a sua constante criatividade divina” recuperando “o o frescor original do Evangelho “(11)
Nesta mudança de época a Igreja deverá, permanentemente oferecer o testenunho da unidade e percorrer o caminho exclusivo da Palavra.