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Guardiões do tempo


 

Na próxima sexta-feira, dia 24 de julho, assinala-se o Dia dos Primos, esses amigos que a vida escolheu por nós, mistura perfeita entre a família e a amizade. Se há pessoas que entram na nossa vida por escolha e outras por acaso, há também os primos, que chegam antes de qualquer memória, como ramos da árvore da família, às vezes próximos, outras vezes distantes, mas ligados pela mesma seiva. São uma espécie de amizade que nasce sem convite, um parentesco que transforma o sangue em cumplicidade e a infância em eternidade.

Os primos conheceram-nos numa idade em que ainda não tínhamos consciência de nós. Encontraram-nos antes das profissões, das responsabilidades que a vida nos foi colocando aos ombros e das máscaras que a sociedade nos impôs. Conheceram o nosso riso sem reservas, as quedas sem vergonha, os joelhos esfolados, os segredos sussurrados. E até guardam versões de nós que o tempo já apagou da nossa memória.

Há uma espécie de geografia secreta dos primos: a casa dos avós, as mesas compridas onde se sentavam adultos, os verões que pareciam não ter fim, os natais onde o cheiro da comida se misturava com o entusiasmo das brincadeiras. Nesses lugares, os primos, mais do que familiares, eram companheiros de expedições imaginárias, cúmplices de travessuras bem planeadas e defensores intrépidos quando os adultos descobriam o que ninguém deveria saber.

Com eles aprendemos que a felicidade pode caber numa tarde inteira passada sem relógio. Bastava uma bola, um esconderijo improvisado, uma bicicleta partilhada ou um campo onde a imaginação construía castelos invisíveis. Não havia riqueza maior do que o tempo, que parecia infindável porque vivido sem a consciência da sua passagem.

Os primos ocupam um lugar singular no coração. Não são irmãos, mas conhecem a linguagem silenciosa da família. Não são apenas amigos, porque entre eles existe uma raiz comum que resiste às estações da vida. Talvez por isso as conversas possam recomeçar depois de meses, ou até anos, como se a última tivesse acontecido na véspera. O afeto familiar reconhece o caminho de volta, mesmo quando a distância parece longa.

A vida espalha os primos por diferentes lugares. Uns mudam de cidade, outros de países, alguns tornam-se pais, mães, avós, enquanto outros continuam a perseguir sonhos que ainda não se realizaram. O calendário acumula compromissos, os encontros tornam-se mais raros e as mensagens substituem os abraços, mas há laços que não dependem da frequência dos dias, antes vivem numa espécie de tempo interior, onde o amor não envelhece.

Crescemos em direções diferentes e, ainda assim, continuamos ligados por um fio invisível, tecido com aniversários, despedidas, reencontros, silêncios compreendidos e alegrias partilhadas. E tal não exige promessas nem explicações, apenas permanece.

Quando reencontramos um primo, independentemente da idade que o espelho revela, regressa a nós uma parte da infância. Durante alguns instantes, voltamos a ser as crianças que corriam sem destino, que inventavam mundos com quase nada, que acreditavam que os adultos sabiam todas as respostas. O reencontro desfaz, por breves momentos, a poeira dos anos e devolve-nos a leveza e o encanto de quem ainda descobria a vida.

Os primos ensinam-nos que uma família é feita de diferentes modos de olhar o mundo: uns são mais silenciosos, outros mais exuberantes; uns oferecem conselhos, outros apenas presença; uns aparecem em todos os momentos, outros surgem apenas quando a vida o exige. Seja como for, cada um acrescenta uma cor irrepetível ao retrato coletivo da memória familiar.

Os primos são os guardiões do tempo, transportando cada um fragmentos da história comum: fotografias esquecidas, episódios que ninguém mais recorda, expressões herdadas dos avós, receitas que atravessaram gerações, histórias repetidas tantas vezes que acabaram por se tornar património afetivo. Quando um primo conta uma lembrança, não está apenas a narrar o passado, está a impedir que ele desapareça.

No fundo, os primos lembram-nos que a família também pode ser um lugar de amizade; que o amor não precisa de ser perfeito para ser verdadeiro; que as raízes não servem apenas para nos prender ao chão, mas também para nos dar a força que permite enfrentar o vento. Lembram-nos haver pessoas que, mesmo não caminhando diariamente ao nosso lado, continuam a fazer parte da paisagem interior onde encontramos abrigo.

Quando o tempo passar, talvez não recordemos todos os acontecimentos, datas ou palavras. Permanecerá, contudo, a sensação de termos pertencido a uma pequena constelação de afetos onde cada primo era uma estrela com brilho próprio. E compreenderemos, então, que os laços mais preciosos não são apenas os que herdamos, mas aqueles que, ao longo da vida, escolhemos alimentar com presença, carinho e memória.

Em síntese, os primos são capítulos vivos da nossa história, pontes entre o passado e o futuro, ecos da infância que continuam a ressoar na idade adulta. E, enquanto existir um reencontro, uma gargalhada reconhecida ou uma recordação partilhada, haverá sempre uma parte de nós que permanecerá para sempre criança, correndo de mãos dadas com aqueles que a vida nos ofereceu antes mesmo de sabermos pronunciar a palavra amizade.


 

P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia

20 julho 2026