São unânimes as opiniões em relação ao Papa que o Espírito escolheu. Não era dos nomes mais consensuais, nem sequer dos mais falados. Ser eleito sem a necessidade de muitos escrutínios significa que a surpresa deve tornar-se um apelo do Espírito. Atrevo-me a repescar alguns dados da história para sublinhar o que poderá estar a acontecer na Igreja.
Se houve surpresa na pessoa, também existiu no nome que escolheu. Creio, porém, que este nome terá sido muito rezado e discernido, ouvindo o Espírito. A história nunca se repete, mas pode – e deve – deixar lições. O nome escolhido pode parecer, à primeira vista, um pouco estranho. Acredito, porém, que tenha surgido para se situar no tempo de um outro Papa que viveu numa época semelhante – mais ainda, num momento que assinala uma grande mudança na história da Igreja. A modernidade começava a impor-se, e todo um esquema construído pela cristandade iniciava o seu desaparecimento. Durante séculos, a Igreja coordenou – ou até mesmo impôs – as suas orientações. O regime teocrático estava sempre presente, como exercício concreto ou como intenção de colocar Deus, através das autoridades religiosas, a dirigir o mundo.
Mas os séculos da história contemporânea começaram a conceber o mundo de um modo diferente. Sinteticamente, podemos afirmar que o espírito da Revolução Francesa gerou um novo modo de conceber a sociedade, recolocando a religião num plano totalmente oposto. Não foi fácil aceitar esta revolução. Tudo foi acontecendo nos diferentes países, com acontecimentos diversificados, mas todos marcados pela ideia de uma autonomia do mundo perante o espiritual.
Em Itália, a evolução dos acontecimentos levou ao projeto de uma reunificação de todos os países existentes naquele território. Acabar com os pequenos estados tornou-se um programa conquistado com muitas lutas. Chegou-se à constituição de um único país em 1870. Faltava, porém, resolver a questão da capital, que passou à história através da célebre “Questão Romana”. Os Papas eram detentores dos Estados Pontifícios, situados, mais ou menos, no centro da península, e a cidade de Roma era considerada como a “capital” onde deveria viver o sucessor de Pedro.
Esta Questão Romana iniciou-se em 1861 e só terminou verdadeiramente com o célebre Tratado de Latrão, a 22 de fevereiro de 1929. Só este confirmou e criou o Estado do Vaticano, fazendo com que os Papas aí vivessem durante décadas, mas considerando-se residentes num cativeiro. A unificação italiana, com a capital em Roma, deu-se, de facto, em 1870, determinando o fim do poder temporal dos Papas, que apenas deveriam cuidar do poder espiritual. Não foi fácil aceitar esta realidade.
O Papa, de um momento para o outro, sente-se mergulhado num ambiente anticlerical e anticatólico. Tudo era adverso, mesmo depois da definição do Dogma da Infalibilidade Pontifícia. Impunha-se uma nova relação com um mundo totalmente novo. Em 20 de fevereiro de 1878, é eleito um novo Papa, que assume o nome de Leão XIII, permanecendo à frente da Igreja até 20 de julho de 1903, num dos pontificados mais longos da história. Foi este homem que protagonizou um novo modo de viver em Igreja. Tradicionalmente, é visto como o Papa que se preocupou com a questão social perante o início da revolução industrial. A sua atividade foi, no entanto, mais ampla, pois comprometeu-se em iniciar uma nova relação de entendimento entre a Igreja e o mundo moderno, na reorganização da própria Igreja e num novo compromisso com os diferentes estados.
Apraz-me sublinhar dois pormenores que podem ajudar a compreender este novo posicionamento da Igreja no mundo: foi o primeiro Papa a gravar a sua voz e a ser filmado por câmaras de cinema, abençoando-as enquanto era filmado.
Este meu brevíssimo devaneio histórico pode parecer despropositado. Mas esta coragem de procurar estar num mundo novo, sem se alhear das realidades humanas, parece-me ter influenciado a escolha do nome, que agora poderá permanecer como programa. Será um continuador do Papa Francisco, mas com um cunho de grande originalidade. O Papa Francisco recordou inúmeras vezes que não estamos numa época de mudanças, mas numa mudança de época. Esta nova “era franciscana” não pode ser interrompida nem condicionada. O caminho está iniciado.
Continuaremos, porém, sem nunca esquecer o que o Papa Leão XIV nos referiu ao apresentar-se à Igreja pela primeira vez. Mostrou-se agostiniano, recordando o essencial do carisma de Santo Agostinho: “Antes de mais, sou cristão convosco e, depois, bispo para vós.” No caminho sinodal iniciado — e que não pode ser interrompido — urge assumir, espiritual e pastoralmente, que a Igreja terá de ser constituída por pessoas que, antes de tudo, se assumem como cristãos. Não há outro distintivo, nem deve haver outro programa.
Só que nunca se poderá esquecer que só se é cristão com os outros, ou seja, em comunhão. E também que este testemunho de comunhão tem de ser trabalhado, vivido e oferecido. Desta identidade de ser “cristão com”, surgirá uma corresponsabilidade diferenciada, uma unidade na harmonia, a agir num protagonismo que envolva todos.
O carisma de Santo Agostinho, seguido por tantos hoje, pode ser sintetizado em três palavras: interioridade, comunidade e serviço.. Estas devem ser as prioridades. A renovação querida e proposta pelo Papa Francisco acontecerá. E só assim a Igreja prosseguirá o caminho iniciado por Cristo e interpretado de modo diferente ao longo dos séculos.
Se o Cardeal Robert Francis Prevost escolheu o nome de Leão XIV, acredito que o quis dotar deste significado. Num mundo diferente, amado e acolhido com todos os sinais de estima, a Igreja não pode contentar-se com reformas meramente exteriores. Terá de chegar ao âmago da sua identidade: ser cristãos, sem ambiguidades, em comunhão de harmonia e num protagonismo de serviços variados ao mundo — um mundo que já não entende a linguagem nem os métodos que sempre lhe oferecemos. Muitas mudanças terão de acontecer. Temos um timoneiro a situar-nos nesta nova aventura.
Assim o queiramos também nós.