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Que o diabo seja cego surdo e mudo

Inesperadamente a Assembleia da República põe o país à beira de um ataque de nervos; e não só, pois veio dar uma imagem pública de se focar somente nos seus umbigos ou seja nos interesses de si próprios, dos seus partidos e da ideologia que professam, embora nem sempre própria e cristalina.

E, assim, que o diabo seja cego, surdo e mudo, penso que os líderes dos dois maiores partidos vão sair das eleições legislativas de 18 de maio que provocaram chamuscados ou mesmo com um passaporte de saída para a reforma política; porque, quer da parte da AD, quer do partido Socialista, havia espaço e condições para manter a legislatura, fosse com o recurso à abstenção (PS), fosse com a desistência (AD) da moção de confiança.

Só que vingou a teimosia, a falta de diálogo, o virar costas aos interesses pelos problemas do país e ao respeito pelo povo que vota e, deste modo, confia nos políticos que elege; todavia, este foi um claro e inesperado golpe na Democracia que acaba por resultar numa evidente apoio ao seu enfraquecimento e descrédito que já se vinha acentuando.

Pois bem, quando a celebração dos cinquenta anos da nossa vida democrática motivo devia ser de afirmação e creditação da continuidade e vitalidade dos seus princípios e valores optou-se por abrir portas e janelas à má-fé, ao jogo de interesses comezinhos, ao orgulho falaz e à autossuficiência balofa e malsã; e quando mais precisos são políticos bem-intencionados, dialogantes e estadistas esta segada política desencadeada na Assembleia da República caiu entre os portugueses como uma autêntica pedrada no charco da baixaria.

E, agora, o que nos espera? Em primeiro lugar, uma imensa incógnita sobre os resultados eleitorais em termos de escolhas e da abstenção e, em segundo lugar, o receio de que o momento permita um desmesurado e indesejado avanço dos populismos e extremismos políticos; e esta situação a acontecer põe em sérios riscos o sistema democrático que, ainda, muitos desígnios sociais, económicos e éticos tem por cumprir, apesar dos seus cinquenta anos já festejados.

Por um lado, o líder do partido socialista, Pedro Nuno Santos, insistia na apresentação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na esperança de que o primeiro-ministro recuasse na apresentação da moção de confiança; mas, nem um nem outro desistiram dos seus intentos, quem sabe na esperança de que as já marcadas eleições legislativas lhes tragam os desejados resultados eleitorais vitoriosos.

Ora, se Nuno Santos deixasse passar a moção de confiança de Luís Montenegro, abstendo-se, jogava uma cartada de mestre a seu favor, porque, assim, deixando que Montenegro se fosse afundando até ao seu fim governativo que, se não fora antes, podia ter lugar marcado na aprovação do próximo Orçamento de Estado; e, deste modo, mostrava ao país ser o único deputado líder da oposição na Assembleia da República a pôr os interesses do país e do povo, obviamente à frente dos interesses dos seus pares e da sua ideologia. 

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro corria um sério risco de ser queimado em lume brando e nas próximas eleições legislativas, após a sua queda resultante do chumbo do Orçamento de Estado; podia ir de guias; mas a sua ambição de poder e a sua correspondente intransigência com o famoso Não é Não com que sempre afastou o Chega de Ventura de qualquer acordo ou simples diálogo, nunca jogou a seu favor.

Pois é, o povo vai percebendo, assim, e constatando, ao mesmo tempo, que os nossos políticos são fraquinhos, sem estofo dirigente e muito menos governativo; e esta verdade tem resultado, como o passado eleitoral o justifica, numa avançada abstenção às urnas, embora a classe política percebendo o alcance desta realidade, não tem sido capaz de dar a volta ao texto e mostrar credibilidade, competência, isenção e sentido de Estado sempre que as circunstâncias adversas rebentam e esmagam os anseios e necessidades do povo.

E, assim, mesmo perante tais evidências os políticos continuam a perseguir fantasmas e a dar tiros nos próprios pés; e, claramente, achando muito injusto e, até, absurdo que as sondagens mostrem estar o povo desconfiado, desmotivado e descrente da sua atuação, seja na governação, seja na sensibilização e mentalização políticas que achamos, como seu dever, sejam feitas.

Agora, urgente mesmo é a reorganização e estruturação dos partidos políticos que conduzam a uma necessária seleção e formação dos seus melhores quadros para agarrarem com pulso firme o leme da ação política; porque com a queda que se vem acentuado na sua pública ação e ativação corremos sérios riscos de a nossa Democracia perder as suas reais qualidades que garantem a liberdade, a igualdade e a fraternidade que se querem plenamente ao serviço de todo o povo.

Como já dizia Mário Soares, primeiro-ministro do governo do PS em 1977, perante o chumbo de uma moção de confiança que apresentou ao Parlamento: o povo português tem recursos extraordinários, o povo português é um grande povo. Muitas vezes os seus dirigentes, a começar por nós, não terão estado à altura daquilo que nós devemos a esse povo tão grande que é o nosso. Confiemos no povo português, ele encontrará com certeza uma solução democrática. E acrescento, esperemos que assim seja.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

2 abril 2025