O setor da saúde em Portugal vive um paradoxo constante: é simultaneamente elogiado pelos seus indicadores de qualidade e criticado pelas suas fragilidades estruturais. Se, por um lado, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) se esforça por garantir o acesso universal, por outro, enfrenta desafios crónicos como longas listas de espera, falta de profissionais e recursos escassos. No setor privado, a oferta expande-se a um ritmo acelerado, mas torna-se cada vez mais inacessível para grande parte da população, levemente mitigada pelo crescimento do acesso a seguros de saúde.
Atente-se à dimensão do mercado da saúde em Portugal: este representa uma fatia significativa do PIB, com um peso superior a 10%, assente num financiamento predominantemente público, através do Serviço Nacional de Saúde (SNS). No entanto, como é público e notório, o setor privado tem crescido exponencialmente, beneficiando da ineficiência do sistema estatal. No campo das exportações, a indústria farmacêutica lidera o mercado, com Portugal a exportar anualmente medicamentos num volume que ultrapassa 1,5 mil milhões de euros. Outros segmentos, como os dispositivos médicos e a biotecnologia, têm demonstrado crescimento, mas continuam a ocupar um lugar secundário. Não deixa de configurar, em certa medida, uma realidade paradoxal: um país que exporta produtos de saúde, alguns inovadores, mas que continua a lutar para garantir serviços de saúde de qualidade dentro de portas.
A verdadeira nota distintiva do mercado da saúde em Portugal reside na formação de profissionais altamente qualificados e na capacidade de inovação em algumas áreas específicas, como a investigação biomédica. Contudo, o sistema padece de uma fuga de talentos alarmante: um número considerável dos (melhores) profissionais de saúde procuram condições mais vantajosas no estrangeiro, especialmente em países como Espanha e França.
Se cairmos na tentação de compararmos Portugal com Espanha, as diferenças são gritantes. O sistema espanhol, também público, mas mais descentralizado, consegue maior eficiência na gestão dos recursos. Acrescem salários mais competitivos que atraem profissionais de outros países, ondes estes se sentem desvalorizados. A nossa vizinha ibérica soube, assim, equilibrar melhor a relação entre investimento e retorno, garantindo um serviço que, em média, apresenta melhores indicadores de desempenho.
Portugal tem potencial para ser uma referência na saúde, mas está preso numa intrincada armadilha assente em vetores como o financiamento, a burocracia e falta de estratégia a longo prazo. Se a Saúde fosse um paciente, diríamos que se encontra em estado crítico, com um prognóstico reservado e a necessitar urgentemente de um tratamento eficaz. Infelizmente, parece que se continua a insistir na automedicação, esperando que uma toma de comprimido resolva problemas que exigem uma intervenção cirúrgica profunda.
Podemos sempre pedir uma segunda opinião, mas, até lá, a realidade evidencia um sistema de saúde que, para muitos, continua a ser apenas "poucochinho".