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Nos 800 anos do “Cântico das Criaturas”

 


 

Tendo sido composto por Francisco de Assis1, no inverno de 1224-1225, o “Cântico das Criaturas” faz agora 800 anos. Foi escrito no dialeto da Úmbria (Itália) e é, pelo seu conteúdo e forma poética, uma das grandes obras da literatura mundial, bem como uma das mais belas expressões de louvor e gratidão a Deus pela criação. No seu todo, reflete a espiritualidade, simplicidade e amor pela natureza que bem caraterizam o Santo de Assis.

O Cântico foi composto num momento de grande fragilidade física, quando Francisco estava quase cego e muito doente. No meio de um grande sofrimento, entre a estigmatização e a morte, brotou de seus lábios este convite às criaturas para louvarem o Senhor. Tomás de Celano, seu primeiro biógrafo, refere que o poema é um novo “cântico dos três jovens” (cfr. Dn 3, 51-90). Na fornalha ardente dos seus padecimentos e na contemplação da criação, encontrou Francisco força para louvar e agradecer a Deus a grandeza e a beleza das suas criaturas.

A pensar nos meus leitores, aqui deixo a letra, na sua tradução em língua portuguesa:


 

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, 

a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, 

especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia.
Ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas: 

no céu as acendeste, claras, e preciosas, e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento e pelo ar, e nuvens, 

e sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, 

que é tão útil, e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, 

pelo qual alumias a noite, e ele é belo e jucundo e robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, 

que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor 

e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, 

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, 

à qual nenhum homem vivente pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal! 

Bem-aventurados aqueles que cumpriram tua santíssima vontade, 

porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.


 

O Cântico é um poema de louvor ao Criador, por meio das criaturas, cuja simplicidade e funcionalidade são sinais do amor divino e, refletindo a glória de Deus, são meios para a Ele chegar. Há um realismo otimista que tudo ilumina: as criaturas são preciosas e belas, pelo que são e não em virtude de um simbolismo misterioso. Com simplicidade e humildade, Francisco reconhece a beleza de cada uma delas e trata-as por “irmãos” e “irmãs”, num registo de fraternidade universal. Se o “irmão Sol” é reflexo da bondade de Deus, a “irmã Morte” é algo a não temer, mas antes porta para a vida do além. 

Profundamente inspirado, este texto tornou-se inspirador para crentes e não crentes. Foi enorme a sua influência na espiritualidade cristã, no pensamento ecológico, na literatura2 e na música3. A sua visão integrada da natureza como um presente divino que merece respeito faz com que seja citado em estudos sobre o meio ambiente. A encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, publicada em 2015, inspira-se nele para enfatizar a responsabilidade humana no momento de proteger a criação.


 


 

1 O “Cântico das Criaturas” foi mencionado, pela primeira vez, na Vita Prima, de Tomás de Celano, em 1228.

2 Entre os muitos exemplos possíveis, está Dante Alighieri (Canto XI/Paraíso, da Divina Comédia); Gerard Manley Hopkins, poeta inglês do séc. XIX, conhecido por celebrar a glória de Deus na natureza, em poemas como Pied Beauty e God’s Grandeur; T. S. Eliot, no poema Four Quartets. De referir também o Hymn of the Universe, de Pierre Teilhard de Chardin 

3 Em 1980, a peça foi escrita para coro, percussão e violoncelo pela compositora russa Sofia Gubaidulina e dedicada ao violoncelista Mstislav Rostropovich.


 

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

27 janeiro 2025