Um outro mito que circula sobre o Cristianismo – neste caso ainda e sempre do primeiro século – é que o mesmo não deixou evidências de símbolos por si usados e que, por conseguinte, tudo o que está relacionado com essa religião tem que ser mais tardio – querendo-se dizer com isto “meados do segundo século”. Repare-se na lógica do presente mito: (1) não há vestígios de símbolos cristãos do primeiro século”; (2) “logo, o Cristianismo tem que ser posterior”. O problema é que, desde logo, a primeira proposição (1) está errada, donde todo o mito é... um mito.
Se se quiser enveredar por uma crítica radical, até se pode admitir que muitos, senão todos, os símbolos cristãos realizados pelos cristãos, para por eles serem usados de raiz e que chegaram até nós, são do segundo século. Mas esta admissão é, desde logo, muitíssimo problemática. Não no sentido de que isso pudesse afetar a veracidade histórica do Cristianismo, nem as evidências avassaladoras de um Cristianismo firmemente estabelecido no primeiro século. O que mostraria, isso sim, é que os cristãos tardaram a dar o passo para a elaboração dos seus próprios símbolos.
Esse atraso teria sido decorrente do que nós, Católicos, consideramos um complemento ao primeiro “Mandamento” (na verdade “Ensinamento”), mas que era um “Mandamento” autónomo no judaísmo e, assim, no Cristianismo anterior à separação desejada pelos judeus face aos cristãos: «não farás para ti imagem (gravada) do que há nos céus». Ocorre que isto não é uma proibição estrita e absoluta de se ter imagens (o próprio Deus as faz e pede que as façamos no Antigo Testamento), mas de não se ter uma relação idolátrica com as mesmas.
Mas, mais uma vez, isto não se sustenta. Mesmo colocando-se de lado o “Quadrado Sator” descoberto, por exemplo, nas ruínas de Pompeia do ano 70 d.C., a meados do século vinte redescobriu-se o que os Cruzados haviam estabelecido como o lugar onde, de acordo com o “Evangelho segundo São Lucas”, Jesus chorou sobre Jerusalém: «Dominus Flevit». Aí, juntamente com uma igreja Bizantina do século V, encontrou-se uma substancial necrópole com ossuários datados desde cerca de 130 a.C. a 300 d.C. Entre estes ossuários encontraram-se alguns do primeiro século com simbologia inequivocamente cristã.
Entre esta simbologia temos imagens da “Árvore da Vida”, cada uma delas com um traço vertical, outro horizontal (para formar a Cruz) e muitos outros oblíquos (para se ter um vislumbre de uma árvore), recordando que a Cruz de Jesus é essa mesma “árvore”. Depois temos as imagens do arado de madeira, com uma pega representada com a clara intenção de ser vista como uma cruz, apontando para a Cruz como instrumento usado por Jesus enquanto o “Bom Semeador”.
Segundamente, temos o símbolo do “Barco da Vida” com o mastro distorcido, em forma de cruz, para ficar perpendicular ao sentido do próprio navio, aludindo ao facto de os abismos, nomeadamente o da morte biológica, não podem ser atravessados sem a Cruz. Por fim, mas não exaustivamente e no que diz respeito ao descoberto no local Dominus Flevit, posso referir-me a ossuários com a última letra do alfabeto hebraico, o “tav” (ת) que no primeiro século era mais frequentemente gravado como parecendo um “mais” (+) ou um “xis” (x), fazendo lembrar que Jesus é o consumador da Vida e da Imortalidade.