Muita tinta correu sobre a décima sexta edição das Jornadas Mundiais da Juventude que, de 1 a 6 de agosto, trouxe mais de um milhão e meio de jovens à capital. Assistiram ainda a este evento – pelo menos parcialmente – cerca de oito milhões de portugueses, não havendo a meu conhecimento dados sobre a audiência mundial, embora a Câmara de Lisboa tenha avançado o número de 590 milhões. Segundo a Marktest, as televisões nacionais dedicaram-lhe um total de 278 horas de emissão, ou seja, uma média diária de cinco horas e 40 minutos por canal, o que corresponde a um quarto do total da programação semanal. Como referem Dayan e Katz (Media events. The live broadcasting of history, 1992), os grandes acontecimentos mediáticos caraterizam-se pelo facto de interromperem o decurso habitual da programação, conquistando audiências globais, e de serem difundidos em direto, usualmente longe dos estúdios.
Tais eventos, sejam eles tragédias ou cerimónias coletivas, são verdadeiramente mobilizadores, inscrevendo-se na história dos espaços públicos onde têm lugar. Não é por acaso que a Eurovisão (1954) nasceu na sequência da transmissão da coroação da rainha Isabel II (2 de junho de 1953) ou que as emissões regulares da RTP se iniciaram a 7 de março de 1957, duas semanas depois do programa experimental dedicado à visita da monarca inglesa a Portugal. Os acontecimentos mediáticos fazem simultaneamente parte da trama universal, da história dos media e da memória dos telespectadores. Mais perto de nós, alcançaram esse estatuto acontecimentos como a Expo 98, a queda da ponte d’Entre-os-Rios e o Euro 2004, entre outros. Uma tal cobertura suscita uma intensa mobilização, mas também alguma celeuma.
No caso da recente vinda do Papa Francisco, o orçamento público, o selo comemorativo, o altar-palco, o cartaz de Oeiras, os ajustes diretos, a amnistia, o caso das bandeiras LGTB+ ou a ponte sobre o Trancão são algumas das controvérsias mais evocadas. A propósito da decisão da Câmara de Lisboa em atribuir o nome de D. Manuel Clemente à nova passagem pedonal, foram criadas duas petições online – com 17 500 e 3 300 assinaturas – pedindo que a mesma fosse revertida porque o homenageado seria “um dos nomes que está sob suspeita de ter encoberto pelo menos um crime de abuso sexual de menores”. Quase de imediato, duas subscrições contrárias – com 8 200 e 800 assinaturas – apoiavam a iniciativa pelo facto de ser “um justo reconhecimento do seu papel na sociedade”. Submetido ao escrutínio público nas redes sociais, o Patriarca emérito acabou por declinar a homenagem.
Estas polémicas – sem pôr em causa o direito que cabe aos diversos atores do espaço público de defenderem as suas convicções – não devem fazer-nos esquecer o cerne da mensagem que o Papa veio partilhar com os jovens do mundo inteiro. Reduzir as JMJ a tais contendas equivaleria a converter esse acontecimento histórico numa “guerra ideológica” entre dois campos entrincheirados. Há, de facto, grupos de pressão organizados que sobranceiramente, procuram desvalorizar as crenças religiosas. Em simultâneo, sensibilidades católicas (ultra)conservadoras, saudosas de tempos idos, revêm-se em ideários de extrema-direita. Entre as duas correntes, uma maioria de crentes – com níveis de prática diversas – procuram um lugar num espaço público cada vez mais polarizado.
Assumindo os erros do passado, a Igreja é chamada a olhar para estas Jornadas Mundiais da Juventude como uma oportunidade de renovação e não como uma manifestação de um qualquer poder institucional. A todos, mas sobretudo aos católicos, o Papa Francisco lembrou que “o cristianismo não pode ser habitado como uma fortaleza cercada de muros, que ergue baluartes contra o mundo”, salientando que “o único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se.” Embora uma parte significativa tenha desertado os bancos das igrejas, muitos jovens responderam com entusiasmo ao apelo do Sumo Pontífice. É com esses que é necessário começar a construir pontes…