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Ocidente (4)

1. Sobre “Ocidente” já escrevemos três artigos no DM (14/06/2022, 28/06 e 5/07), mas a publicação recente do livro “Um Ocidente sequestrado ou a tragédia da Europa central”, de Milan Kundera (1929-2023) – eterno candidato ao Nobel da literatura, mas vencedor de vários prémios –, falecido no passado dia 11 de Julho, aos 94 anos, na capital francesa, é o motivo para voltar ao tema, sobre que versa este livro do escritor da antiga Checoslováquia, audaz combatente pela liberdade e a democracia, obrigado a exilar-se (1975) em França dada a perseguição que o regime soviético lhe movia. Kundera foi autor de vasta obra (romance, ensaio e poesia), traduzida em mais de 50 idiomas, numa vida vivida de forma muito discreta com a esposa Vera. Obteve a nacionalidade francesa (1981) dois anos após o seu país natal lhe retirar a sua, que, só aos 90 anos (2019, 40 anos depois) voltou a restituir-lhe.

 


2. Se é o livro acima citado que agora nos interessa, convém recordar que Milan iniciou a sua actividade literária com o livro “A Brincadeira” (1967), com o qual recebeu (1968) o Prémio da União de Escritores da Checoslováquia, ano em que – não se esqueça – a Rússia invadiu a Checoslováquia, tendo o autor sido alvo de perseguição e o livro de censura, prémio que preanunciava uma longa obra embrenhada na vida social. Em “O Livro do Riso e do Esquecimento” (1978), um conjunto de histórias que têm o amor como tema nuclear – única saída num mundo incerto –, em que se entrecruzam jogos, cenas e fantasias, num plexo introspectivo que enleia os mais íntimos sentimentos do ser humano, mas onde faz uma contundente crítica ao regime comunista, não perdendo o ensejo de apelidar Gustav Husak (o presidente imposto pelos soviéticos, após a invasão) como "o presidente do esquecimento" (VI Parte, §.2), acrescentando: "Os russos o instalaram no poder em 1969. Desde 1621, a história do povo checo não conhecia semelhante massacre da cultura e dos intelectuais". Entre os muitos títulos, em 1990 publicou “A Imortalidade” (último romance em checo) e “A Identidade” e, em 2000, “A Ignorância”, culminando com “A Festa da Insignificância” (2014).

 


3. A sua obra-prima, “A Insustentável Leveza do Ser” (nova tradução portuguesa em 2017), adaptado ao cinema por Philip Kaufman, é um dos romances míticos do século XX sobre as relações humanas, mormente em torno do amor e do erotismo, onde se conjuga a aventura individual e a colectiva, num fundo de crítica ao regime comunista; as peripécias e decisões dos personagens estão ligadas ao momento político da publicação do livro – a invasão da Checoslováquia pela Rússia. O escritor traça aí um retrato da condição humana contrapondo dois conceitos opostos – o ‘peso’ de Nietzsche e a ‘leveza’ do filósofo grego Parménides –, vivido por uma tríade amorosa (Tomas, Sabina e Tereza), em que o cirurgião, por se opor ao regime comunista, é forçado a trabalhar como lavador de janelas; também Tomas, mulherengo, tem muitas amantes, inclusive a artista plástica Sabina, mas nunca passa a noite com nenhuma delas, representando a leveza de uma vida sem consequências; porém, conhece Tereza, com quem passa a ter um relacionamento mais sério, quase sem querer, e que representa o peso de se entregar de corpo e alma a outra pessoa. O juízo que a ‘leveza’ seria melhor que a ‘pesadez’, ou vice-versa, vai sendo um jogo que se desenvolve ao longo da narrativa.

 


4. O livro “Um Ocidente sequestrado ou a tragédia da Europa central” reúne (1) o Discurso pronunciado por Kundera ao Congresso dos Escritores da Checoslováquia de 1967, em plena Primavera de Praga, que viria a ser esmagada pela invasão das tropas soviéticas, e (2) um longo artigo publicado na revista francesa “Le Débat” (Novembro 1983), quando Milan já tinha abandonado a sua pátria e vivia em França.

No “Discurso” elogia a vitalidade das pequenas Nações que defendem a sua soberania cultivando a própria língua, que preserva a identidade nacional, nunca se diluindo num Estado grande e imperialista; se neste a venda de livros é maior, é à custa da própria língua. A questão é actual com o florescimento de pequenos Estados, em democracia, na Europa Central. Por essa geografia, entre a Rússia e a Alemanha, passaram o nazismo e o estalinismo, a ofensiva soviética em Budapeste (1956) e em Praga (1968). No discurso, salienta: "Assistimos, desde o nascimento do século XX, sobretudo entre as duas guerras, a uma explosão cultural sem paralelo em toda a história checa. Durante dois decénios, toda uma plêiade de homens de génio se dedicou à criação e, nesse período muito curto, conseguiram, pela primeira vez depois de Comenius, levantar a cultura checa ao nível europeu, conservando as suas especificidades".

Todavia, com o fim da II Guerra Mundial, a Checoslováquia ficou do outro lado da Cortina de Ferro, arrancada que foi ao todo a que pertencia, para ficar presa de algo que lhe era estranho. No próximo artigo trataremos do segundo texto.

 


O autor não escreve segundo o denominado “acordo ortográfico”

 

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

30 julho 2023