Acaba de ser publicada a 12.ª edição do Digital News Report 2023, o inquérito anual do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ) que analisa o consumo de notícias em formato digital em 46 países. O estudo de caso português, a cargo dos investigadores Gustavo Cardoso, Miguel Paisana e Ana Pinto Martinho, é monitorizado pelo Observatório da Comunicação (OberCom). Portugal (58%) apresenta-se como o terceiro país – atrás da Finlândia (69%) e do Quénia (63%) – onde mais se confia nas notícias. Qual aldeia de Astérix, o nosso país é caso único entre as nações da Europa central e do Sul, como testemunham a Grécia (19%), França (30%), Espanha (33%), Itália (34%) e Alemanha (43%). Quase apetece dizer, parafraseando Leibniz, vivemos no “melhor dos mundos possíveis” em termos informativos. Talvez não seja tanto assim. Se olharmos com mais de atenção, os dados não deixam de suscitar algumas interrogações.
Do painel de 15 meios de comunicação apresentados aos inquiridos, a RTP é o que gera mais confiança (78,4%), seguido de perto pela SIC (78,2%) e pelo Expresso (77,3%). A TVI ocupa o décimo lugar (72%) e o fundo da tabela é repartido entre os medias regionais (65,5%) e o Correio da Manhã (55,7%). Dado que Portugal é um dos países “onde a televisão continua a manter um papel destacado nas dietas informativas da população” (p. 91), sendo usado para acesso a notícias por 67,6% e por 51% como principal fonte de notícias, seria natural que tais índices se refletissem nas audiências. Ora, os serviços noticiosos da RTP oscilam entre o segundo e o terceiro lugar entre os canais generalistas, ficando não raras vezes atrás da TVI. Até o Grande Jornal da CMTV consegue, por vezes, intrometer-se nos lugares cimeiros.
Uma coisa é aquilo que os inquiridos afirmam, outra, por vezes, bem distinta é a prática quotidiana. Quer isso dizer que não podemos confiar neste tipo de estudo ou que este, em particular, não foi bem feito? Claro que não. Não é por acaso que os autores fazem questão de utilizar reiteradamente a expressão “os portugueses dizem”. Dizer é uma coisa, fazer é outra. Embora seja o terceiro país que mais confia nas notícias, cerca de 70% dos portugueses dizem manifestar preocupação face à desinformação/fake news na Internet e um terço (34%) procura inclusivamente evitar as notícias de forma ativa. Entre aquele que manifestam lassidão informativa, 48% reduzem o acesso a todo o tipo de conteúdos, enquanto 40,8% evitam aceder a fontes específicas. Por ordem decrescente, dizem evitar notícias sobre a invasão da Ucrânia (37,6%), entretenimento e celebridades (33.8), desporto (30,6%) e crime e segurança (30,6%).
É ainda significativo que 8 em cada 10 acessos a notícias online (85%) sejam feitos de forma indireta – contra 76% nos outros países – e apenas 13,4% ocorram através da visita direta ao website dos media, sendo que 35,7% consideram positiva a seleção feita pelos algoritmos com base no seu consumo passado. Também por isso, Portugal continua a ser um dos mercados onde menos se paga por notícias online (10,9%), face a uma média global de 17%. As principais razões invocadas são o preço (27%), o conteúdo não suficientemente relevante (16,8%) e a inexistência de um serviço que permita aceder a vários sites de notícias em simultâneo (16,5%).
Docente na área da Comunicação me confesso: recorro, com alguma frequência, à greve informativa no que aos meios de comunicação lusos diz respeito, com exceção de um jornal nacional e de outro regional dos quais sou assinante. Não é porque o que é estrangeiro seja sempre melhor, mas em termos de serviços noticiosos televisivos poderíamos inspirar-nos de alguns bons exemplos. Ainda este semestre, pedi aos estudantes do 1º ano para fazer uma análise de uma semana de telejornais portugueses. Há coisas que não mudam: fora de Lisboa é paisagem; uma minoria de atores políticos monopoliza a palavra; os homens ocupam dois terços do tempo de antena e são chamados para assuntos considerados mais relevantes; multiplicam-se os diretos sem conteúdo ou propósito concreto e por aí adiante… Enquanto perseverarmos nessa senda, não admira que se consolide um certo cansaço informativo.