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Pandemia tem agravado as desigualdades de género

Pandemia tem agravado as desigualdades de género
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Publicado em 18 de março de 2021, às 23:37

Situação pode ficar ainda pior com o agudizar da crise económica.

A pandemia tem contribuído para agravar as desigualdades sociais, entre as quais as de género. Muitas mulheres estão sobrecarregadas com o aumento do trabalho doméstico, ao mesmo tempo que se acentua a insegurança laboral. A situação pode ficar ainda pior com o agudizar da crise económica. O alerta é lançado pela professora universitária Carla Cerqueira, no mês que fica marcado pela comemoração do Dia Internacional das Mulheres. A docente da Universidade Lusófona do Porto refere que a história tem mostrado que «não existem crises que sejam neutras do ponto de vista de género». Questionada sobre se poderemos assistir a um aumento do desemprego feminino e do acentuar das disparidades salariais, a investigadora do Centro de Investigação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (CICANT) lembra que «as crises têm sempre impactos económicos, sociais, políticos e culturais». «Muitas mulheres já se encontram em situações de maior fragilidade laboral. Com a pandemia, há uma tendência para que aumente o desemprego e que elas fiquem em situações de maior vulnerabilidade. É importante sublinhar que a pandemia vem agravar muitas das fragilidades que já existiam, muitas das desigualdades de género», declara ao Diário do Minho. Relativamente ao impacto da pandemia no quotidiano das mulheres, a especialista explica que os estudos têm demonstrado que existe uma sobrecarga, provocada por «um aumento do trabalho doméstico e da esfera do cuidado – que continua a ser desvalorizado socialmente e a não ser reconhecido efetivamente como trabalho –, do apoio às crianças e a outras pessoas dependentes, a par dos encargos profissionais». «Muitas mulheres encontram-se numa situação de grande fragilidade, mesmo com dificuldades de manter o emprego dada a insegurança laboral e por isso fazem uma gestão de todas as esferas, que resulta numa enorme sobrecarga, com consequências do ponto de vista da saúde física e mental», adverte. A académica lembra que foi necessário exercer «muita pressão para se implementarem medidas de apoio a famílias em situação de teletrabalho e com menores de 12 anos ao cuidado», mas constata que, «por causa da insegurança laboral e da necessidade de manutenção do emprego, muitas pessoas – maioritariamente mulheres e mães – nem sequer podem tomar essa decisão». Em seu entender, a sobrecarga «tende a agravar-se», especialmente em períodos de confinamento, nos quais há o recurso ao teletrabalho e as crianças estão em casa, mui- tas em aulas online. «Isto tem consequências penosas na vida das mulheres, que ficam completamente sem tempo de lazer, com um esgotamento muito grande, e em alguns casos mais sujeitas a situações de violência», alerta. Um ano depois de começar a pandemia há vários estudos em diversos contextos que mostram o acentuar das desigualdades entre homens e mulheres. «É preciso que se faça uma análise destas consequências porque elas vão agravar-se ainda mais e vão levar inevitavelmente a retrocessos no campo da igualdade de género», afirma. Na sua perspetiva, no atual contexto, o «que acontece muitas vezes é centrar as discussões em torno da saúde, mas a saúde também necessita destas “lentes de género”. Muitas das trabalhadoras que estão na chamada linha da frente são mulheres, muitas das cuidadoras são mulheres, os impactos em termos da saúde física e mental também são genderizados, só para dar alguns exemplos. É fundamental que não se apague da agenda a transversalidade da dimensão de género nas várias esferas».   É fundamental conhecer a situação a fundo para intervir [caption id="attachment_200931" align="" width="664"] Carla Cerqueira, professora da Universidade Lusófona do Porto (Foto DR)[/caption] A professora universitária Carla Cerqueira aplaude a decisão da presidência portuguesa da União Europeia de pedir um estudo sobre o impacto da pandemia de Covid-19 nas mulheres. «Importa perceber os retrocessos e a forma como as desigualdades de género se têm agravado com a pandemia e que impactos futuros é que terão. Primeiro, é fundamental conhecer a situação a fundo e as especificidades existentes em cada país, até porque dados do Instituto Europeu de Igualdade de Género referem que as mais penalizadas são as mulheres com menos qualificações e as migrantes», afirma a docente da Universidade Lusófona do Porto. A académica enfatiza que «as mulheres não são um grupo homogéneo», sendo necessário «combater esta universalização de experiências que muitas vezes se continua a reificar. Só a partir daí é que se poderão definir medidas europeias e que incorporem as especificidades nacionais e locais».   Caminho «longo e espinhoso» até à igualdade laboral Carla Cerqueira considera que o caminho até à efetiva igualdade de género no mercado laboral é «longo e espinhoso». Instada a comentar o facto de Portugal estar em 13.o lugar no ranking europeu, dentro do grupo de 16 países com empresas cotadas no STOXX Europe 600, a especialista refere que «existe um longo caminho a percorrer no que diz respeito à igualdade de género, sendo que o mundo laboral não é exceção». «Muitas são as nuances da desigualdade de género no mercado de trabalho, desde as escolhas vocacionais e profissões que ainda são genderizadas, as dificuldades no ingresso nas carreiras, as assimetrias existentes em termos de progressão, a hierarquização e os "tetos de vidro" nos lugares de tomada de decisão», explica. Em seu entender, «a retórica da meritocracia continua a perdurar quando se fala da necessidade de implementar medidas de ação afirmativa para que as mulheres comecem a ingressar em determinadas profissões e estejam presentes nos cargos de liderança de várias empresas. É preciso desconstruir isto. Há uma resistência muito grande ainda a este tipo de medidas e que necessita de uma maior discussão pública, consciencialização para que possa surtir efeitos. Estas medidas visam corrigir desigualdades historicamente enraizadas e são um meio para a implementação da igualdade e nunca um fim em si mesmo».
Autor: Luísa Teresa Ribeiro