Os vinhos da casta Alvarinho de Monção e Melgaço afirmam-se entre os brancos de nível mundial. A vitivinicultura é o motor da economia dos dois concelhos. Em contraciclo com a retração do mercado mundial de vinho, esta sub-região tem conseguido aumentar as exportações e atrair investimentos de grandes grupos do setor.
O território tem aproveitado a singularidade do terroir para apostar em vinhos de excelência, num trabalho que inclui as vinhas, as adegas e todo o processo de venda, com reforço das vendas para o exterior. A uva da casta Alvarinho é uma das mais bem pagas a nível nacional, na ordem de 1,20 euros por quilo.
Os produtores estão a explorar o potencial de guarda dos vinhos, o que exige investimento em condições de estágio nas adegas e capacidade financeira para manter colheitas armazenadas durante vários anos.
Enquanto continuam a estudar as potencialidades de envelhecimento do Alvarinho, indiscutivelmente o cartão de visita da sub-região, os produtores estão de olhos postos no futuro, a plantar outras castas e a ensaiar novos perfis de vinhos que agradem aos consumidores.
No horizonte está o anseio de obterem a classificação como Denominação de Origem, vista como uma forma de valorização dos vinhos locais, que são comercializados, desde 2017, com um selo de garantia exclusivo, previsto no acordo que permitiu a plantação de Alvarinho fora de Monção e Melgaço, firmado em 2015.
A sub-região possui 2 mil hectares de vinha, sendo 1514 de Alvarinho e 213 de castas tintas. Em 2025, produziu 12 milhões de litros, contando com 1900 viticultores e engarrafadores.

A par da produção vínica, o território está a afirmar-se como destino de referência no enoturismo, tirando partido da «arte de bem receber com autenticidade, mas com o profissionalismo que o mercado global exige».
Esta oferta foi divulgada na primeira edição da iniciativa Monção & Melgaço Open Cellars Edition, promovida pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), em parceria com o Turismo do Porto e Norte de Portugal e os municípios de Monção e Melgaço.
No primeiro fim de semana de junho, o evento reuniu produtores, restaurantes, unidades hoteleiras, espaços culturais e empresas de animação turística, numa celebração conjunta do vinho, da gastronomia, da cultura e da paisagem.
Mostrando que a aposta no enoturismo é consistente, a Rota do Alvarinho está a dinamizar, nesta época, experiências que convidam os visitantes a participar nas vindimas, descobrindo a singularidade do território em conjunto com os viticultores.
Casta com potencial extraordinário
A presidente da CVRVV, Dora Simões, elogia o «sucesso coletivo» da sub-região, que está pujante no mercado, numa altura em que «os vinhos atravessam um momento muito difícil a nível mundial», destacando a «alavancagem numa só casta, com um potencial de envelhecimento extraordinário e notoriedade internacional, que atua na parte média e superior do preço».
Esta responsável enfatiza o potencial turístico do território, apontando a existência de “adegas boutique”, estruturas pequenas, familiares e diferenciadas, a par de uma paisagem vitivinícola diferente em relação às que se encontram noutras regiões do país. «É lindíssimo olhar para as vinhas, que são tratadas com um trabalho meticuloso, como um jardim», declara.

Por seu turno, o presidente da Câmara de Melgaço, José Albano, afirma que o Alvarinho é «o motor» da economia do concelho e o «turismo vínico é um compromisso para os 365 dias do ano». «Se a produção de vinho Alvarinho é a nossa grande embaixadora no mundo, o enoturismo é o motor que fixa o valor cá dentro, na nossa terra», diz, explicando que, «mais do que uma receita complementar à produção, o enoturismo é, hoje, uma fonte de rendimento autónoma e geradora de emprego qualificado».
O edil refere que, hoje em dia, «o enoturismo já não é visto, em Melgaço, como um bónus, um mero passatempo ou um acolhimento informal de simpatia. É encarado como um negócio altamente profissional, estratégico e com uma cadeia de valor acrescentado muito clara, tendo passado a ser gerido com o rigor e a visão do mundo empresarial, com investimentos em hotelaria de charme, guias especializados e experiências premium», lembrando que «há um investimento brutal na sofisticação das salas de prova, no marketing territorial e na formação de equipas».
Alvarinho é «o ouro» da região
O vereador do Planeamento e Promoção Territorial da Câmara de Monção, João Oliveira, classifica a viticultura como «fundamental» para a economia local e indica a singularidade do terroir como fator de atratividade do concelho, aliado ao conhecimento transmitido de geração em geração. «O vinho Alvarinho é um elemento-âncora para o território. É, no fundo, o nosso ouro», resume.
O concelho tem atraído «grandes players do mercado que investem no enoturismo», designadamente a Symington, que ficou com a Casa de Rodas, a empresa The Fladgate Partnership, que adquiriu a Quinta da Pedra, e o grupo francês Roullier, que comprou a Quinta do Hospital, através da Falua, a sua filial de vinhos em Portugal. «Verificamos que existe uma franja importante da população mais jovem que vê na área dos vinhos uma oportunidade, um negócio importante, e tem vindo a fazer investimentos», constata, dizendo que esse impulso também tem «ajudado a construir uma nova imagem do vinho Alvarinho».
O responsável autárquico destaca o crescimento dos espumantes de Alvarinho, que já representam «uma fatia muito importante do negócio dos vitivinicultores locais».
É precisamente para dar visibilidade a este produto que existe a Festa do Espumante, em Melgaço, que este ano vai decorrer entre 4 e 6 de dezembro. «É um evento plenamente consolidado no nosso calendário, que celebra a enorme versatilidade e a excelência do nosso Alvarinho, na versão espumante», explica José Albano.
O edil aponta como objetivo para a Festa do Espumante deste ano «continuar a elevar a fasquia». «Queremos potenciar a atratividade dos nossos espumantes, que se pautam pela enorme qualidade e são já de renome, promover harmonizações gastronómicas ousadas com o nosso fumeiro e produtos locais, e atrair cada vez mais público galego e nacional, num período do ano crucial para combater a sazonalidade turística», diz.
O vice-presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Cancela Moura, considera que a sub-região de Monção e Melgaço «conquistou um lugar de destaque porque conseguiu transformar um produto de excelência quase numa experiência completa», pois «o que o visitante encontra vai muito para além do vinho: é o património, a tradição, a hospitalidade e as paisagens».
Este responsável revelou que o projeto "Enoturismo no Porto e Norte – ENONORTE" vai dispor de 2 milhões de euros para a valorização e a promoção integrada do enoturismo no Norte de Portugal. A decorrer durante dois anos, este projeto envolve as quatro regiões vitivinícolas do Norte – Vinhos Verdes, Douro e Porto, Trás-os-Montes e Távora-Varosa – e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, visando responder «à necessidade de aceleração digital, de capacitação setorial e de contrariar a fragmentação da oferta enoturística».
Sub-região de Monção e Melgaço de portas abertas para o mundo
«A Sub-região de Monção e Melgaço está, neste momento, virada para o mundo. Precisamos de ser visitados porque temos pano para mangas, para fazer programas e visitas. É preciso ajustar a oferta a cada cliente, pôr rostos em cada história».
Esta afirmação é da gestora do Soalheiro, Maria João Cerdeira, e traduz o espírito que se vive entre os produtores da sub-região de Monção e Melgaço, que estão a estruturar uma oferta de enoturismo para levar os visitantes à descoberta do território, através de experiências personalizadas e diferenciadoras.
A atual configuração da paisagem e da economia dos dois concelhos começou na parcela Soalheiro, em Alvaredo, Melgaço, local onde João Cerdeira plantou, em 1974, a primeira vinha contínua de Alvarinho. «Assisti à mudança da paisagem, que foi muito rápida. Tive o privilégio de ver a vinha em bordadura, com cereal no meio, onde hoje vemos vinha contínua», conta Maria João Cerdeira.

A marca Soalheiro nasceu em 1982, na garagem da família, com vinho em duas barricas de castanho. O projeto conta, atualmente, com um clube de viticultores com cerca de 200 famílias, que perfazem mais de 700 parcelas. «Estamos no microfúndio, onde as parcelas são tratadas como jardins», constata a empresária.
No ano passado, a empresa produziu 1,2 milhões de garrafas e faturou 7,5 milhões de euros. O portfólio é composto por 33 referências, sendo que 40% da produção é para exportação, num total de 55 mercados. A firma vai investir um milhão de euros num edifício de prensagem e lançar mais três vinhos da Cave da Inovação, incubadora onde faz experiências de vinificação.

Na área do enoturismo, tem uma oferta estruturada, que inclui diversas opções de prova e contempla iniciativas sazonais, como o programa de vindimas denominado “Manta de Retalhos”, a decorrer até ao fim do mês, que leva os participantes a viverem um dia de vindima. Tem também a Casa das Infusões, uma unidade de alojamento com três quartos.
A dinâmica de investimento também está em curso na Quinta do Louridal, propriedade com um passado que remonta a 1700, no concelho de Melgaço, conta Maria de Fátima Teixeira.
A empresa plantou três hectares de vinha, para juntar aos cinco que já tinha, tendo como meta duplicar a produção anual de 10 mil para 20 mil garrafas. As primeiras vinhas foram plantadas em 2000 e o primeiro vinho surgiu em 2005, desde então comercializado com a marca “Poema”.

Paralelamente, construiu uma nova adega, que já está a funcionar, com condições para assegurar o estágio dos vinhos. O enólogo Jorge Sousa Pinto considera que a mudança registada no perfil dos clientes, que procuram vinhos mais antigos e pagam melhor por essas referências, representa «uma janela de oportunidade para que esta região aposte no estágio dos vinhos em adega, permitindo a sua colocação no mercado num posicionamento mais nobre e mais valorizado».

No próximo ano, a Quinta do Louridal deve pôr em funcionamento um empreendimento de turismo em espaço rural de quatro estrelas, composto por sete quartos e piscina.
Seguindo para o concelho de Monção, a maior vinha nacional da casta Alvarinho, com cerca de 50 hectares, está localizada na Quinta da Torre, propriedade emblemática do projeto de Anselmo Mendes, que apresenta um programa de enoturismo com provas e alojamento.

Conhecido como “Senhor Alvarinho”, também com incursões bem-sucedidas no Loureiro, o produtor vai plantar 15 hectares de castas raras, especificamente Alvarelhão, Pedral, Verdelho Feijão e Cainho Branco.
No ano passado, a produção total ascendeu a 800 mil litros, sobretudo de Alvarinho, representando um volume de negócios de 5,5 milhões de euros. As exportações representaram cerca de 70%, num montante na ordem dos 3,5 milhões de euros.

O roteiro do enoturismo de Monção passa pela Quinta de Santiago, propriedade com cerca de dez hectares, dos quais nove são ocupados por vinha, sendo compostos maioritariamente Alvarinho e parcelas de Loureiro e Alvarelhão. Para além de uma casa senhorial, a quinta tem cerca de cem árvores de fruto e muitas flores.
O portfólio da empresa familiar liderada por Joana Santiago, simultaneamente presidente da Associação de Produtores de Alvarinho, inclui 11 referências. Em 2025, o volume de negócios ascendeu a cerca de 600 mil euros, com 70% da produção destinada à exportação.

Exemplo da entrada das grandes empresas internacionais na sub-região, a Quinta do Hospital, em Monção, proporciona uma viagem pela história, acompanhada pelos vinhos “Barão do Hospital”, assinados pela enóloga monçanense Antonina Barbosa. A propriedade é detida, desde 2021, pelo grupo francês Roullier, através da Falua, a sua filial de vinhos em Portugal.

Com vertente de enoturismo, a propriedade tem 10 hectares de vinha de Alvarinho, numa área total de 25 hectares. A quinta inclui uma casa senhorial com elementos históricos, 150 oliveiras centenárias e um espigueiro de grandes dimensões. A produção cifra-se em cerca de 50 mil litros de Alvarinho.

Harmonização com gastronomia realça os vinhos
Os vinhos de Márcio Lopes e Dona Paterna estiveram em harmonização com a gastronomia de Monção, num jantar na Adega do Sabino, integrado na primeira iniciativa Monção & Melgaço Open Cellars Edition.
A Dona Paterna é a sexta marca de vinho mais antiga de Monção e Melgaço, existindo desde 1990. O projeto começou com meio hectare, em 1974, contando com 16 hectares e parceria com alguns produtores locais. «Esta é a terra-mãe do Alvarinho, é aqui que a casta atinge a sua potencialidade máxima», declara o produtor Carlos Codesso.
Por seu turno, Márcio Lopes instalou-se por conta própria na Sub-região em 2010, através da adega Pequenos Rebentos, em Melgaço, destacando-se pela recuperação de ramadas, com 80 ou 90 anos.

O enólogo e produtor destaca que «o Alvarinho tem a capacidade de produzir vinhos que se batem com as melhores referências a nível internacional», sublinhando a importância do terroir. «Na região, percebemos que temos algo especial», confessa.
Já as referências da Quinta das Pereirinhas foram as protagonistas de um jantar vínico no restaurante Monte da Mina. Liderado pelo enólogo João Pereira, o projeto familiar começou com dois hectares e tem neste momento dez, cultivados em regime de produção integrada da vinha.

A empresa comercializa os seus produtos com as marcas Quinta das Pereirinhas e Foral de Monção, sendo esta reconhecida pela icónica garrafa azul, evocando aquele documento régio.
Queijos de “cabras felizes”

Harmonizar queijos de “cabras felizes” com os vinhos das Quintas de Melgaço é a proposta da Queijaria Prados de Melgaço.
O projeto da queijaria começou em 2012, centrado no bem-estar das cabras, animais que ouvem música clássica e têm escovinhas para ativar a circulação.
Atualmente, a unidade conta com 260 cabras, que produzem cerca de 150 litros de leite por dia, destinados à produção de 10 referências de queijo.
A queijaria recebe visitas, marcadas com um mínimo de 24 horas de antecedência, refere Mónica Solheiro.