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Viver nas cidades hoje

A vida nas cidades modernas é cada vez mais difícil e sem qualidade; e isto porque as pessoas afluem cada vez mais aos mega-aglomerados urbanos em busca de melhores meios de subsistência, não curando de saber que forma de vida as espera e que luta indómita diariamente têm de travar. As grandes cidades de hoje estão a transformar-se em autênticas selvas, descaraterizadas e desumanizadas, tal a balbúrdia como são concebidas e onde a privacidade, o conforto, a segurança, a qualidade de vida, a paz existem, apenas, na imaginação dos pseudo-urbanistas que as concebem; e, então, aquelas que crescem desordenadamente maiores vítimas são da incúria e especulação dos patos-bravos que as constroem. Pois bem, Braga é, hoje, uma cidade sede de um município a caminho de duzentos mil habitantes; e, logicamente, é já uma grande cidade; e, por isso, se toma cada vez mais difícil nela viver com qualidade; espaços verdes, conforto, segurança, inclusão e cultura. Se pensarmos na cidade provinciana, caseira, maneirinha, fechada, bisbilhoteira de há cinquenta anos atrás, até nos custa acreditar nas caraterísticas de Braga dos nossos dias: cosmopolita, moderna, jovem, europeia, educadora e inclusiva; mas, a estas benfeitorias não são alheias as malfeitorias que se vão instalando e dominando com algum denodo o seu tecido urbano e periférico. Ora, não é difícil fazer crescer urna cidade, mormente devido à dinâmica e autonomia municipais que atualmente privilégio são das autarquias; mas, o verdadeiramente difícil é fazê-las desenvolver, porque crescimento e desenvolvimento não são sinónimos, tendo aquele mais a ver com o corpo, o físico, e este com o espírito, a alma. Quer dizer, Braga cresceu muito nas últimas décadas (em prédios, urbanizações, ocupação de espaços e paisagens), mas, paralelamente, pouco ou nada se desenvolveu (em espaços de convívio, zonas verdes, lazer e cultura), basta vermos o que acontece com o trânsito às horas de ponta, apreciar a arquitetura dominante, bem como a largura e traçado das ruas, o caos das urbanizações periféricas ou contar o número de árvores e espaços verdes por habitante. Afinal, culpa de quem? Culpa de quê? De muitos e de muitas coisas. Por um lado, a necessidade de crescer que apanágio é de qualquer mortal, levou muita gente a deixar-se embalar pelo canto do cisne da megalomania («Braga a cidade europeia de maior expansão», «Braga com o maior túnel rodoviário do país», «Braga a cidade com maior zona pedonal» e, por outro lado, muitas facilidades, improvisação e descontrolo na construção acabaram por dificultar o rigor no seu crescimento. O repto lançado foi: crescer, crescer, crescer. Mas, crescer devagar e bem ou crescer depressa e mal? Ganhou a segunda aposta; e, embora ambas as hipóteses suportem os seus riscos, o crescer depressa e mal tem-nos seguramente como certos e gravosos. Penso, todavia, que a primeira opção (crescer devagar e bem) seria a mais desejável, porque, sem dúvida, melhores e mais garantias dava de defesa da qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos; e a qualidade de vida e bem-estar nos grandes centros urbanos do futuro é o maior desafio que se coloca aos responsáveis pelas cidades e que são os seus autarcas. Por isso, mais importante do que fazer crescer urna cidade é fazê-la desenvolver; porque mais salutar, desejável e útil não é dar aos cidadãos arranha-céus, hipermercados, centros comerciais ou catedrais de consumo, mas oferecer-lhes amplos espaços verdes, segurança, qualidade de vida, bem-estar e cultura; ou seja, fazer as cidades à medida dos homens e não os homens à medida das cidades que vão habitar, dando-lhes, assim, uma verdadeira dimensão humana, cultural e espiritual. Em conclusão, orgulharmo-nos, pura e simplesmente, da nossa cidade porque cresceu muito, deu um grande salto e depressa, é um orgulho bacoco e falacioso (os elefantes também crescem muito e não passam de elefantes); sobretudo, porque, repito, crescimento e desenvolvimento não são sinónimos e fazer desenvolver é sempre mais difícil do que fazer crescer; e o tal salto para a frente, desta forma, acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser um enorme salto no escuro e, obviamente, no abismo. Seria, de todo, um desígnio desejável, responsável e bom que os autarcas e os bracarenses pensassem nisto a sério, para que não se comentam mais erros para o futuro e se corrija o que poder ser corrigido. Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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14 fevereiro 2018