Na opinião de Frederico Lucas, responsável pela organização Novos Povoadores, quando se diz que as cidades do futuro têm de ser verdes, inteligentes, sustentáveis e low cost esquecemo-nos que isso já existe e chama-se aldeia e é para lá que muitos de nós caminhamos; e já há muitas das nossas despovoadas aldeias que são procuradas por estrangeiros para desenvolverem os seus projetos de vida ou gozarem as suas reformas.
Mas, segundo os dados mais recentes sobre a população das megacidades em 2100, esta opinião cai por terra; e, mormente, porque a procura das cidades para viver e trabalhar é cada vez maior e mais persistente, como a constante desertificação das nossas aldeias vem justificar.
E, então, se analisarmos os dados do relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), The world's Cities in 2018, só no Hemisfério Sul situam-se 33 megacidades, encabeçadas pelas cidades de Tóquio, no Japão, e Nova Deli, na Índia, respetivamente com 37,5 e 28,5 milhões de habitantes; todavia, se seguirmos a projeção avançada pelo Global Cities Institute, daqui a 80 anos, 13 cidades africanas poderão atingir 88,3 milhões de habitantes.
A concretizar-se tal projeção, as cidades de Tóquio e de Nova Deli que, hoje, ocupam o topo da tabela das mais populosas do mundo, serão largamente ultrapassadas pelas cidades de Lagos, na Nigéria, com 88,3 milhões e pela cidade de Kinshasa, na República Democrática do Congo, com 83,5 milhões de habitantes; e para nossa maior surpresa, em 2018, a cidade de Lagos tinha, apenas, 13,5 e a de Kinshasa 13,2 milhões de habitantes, conseguindo, assim, em 82 anos saltarem para o topo das maiores do mundo.
Ora, segundo a projeção do Global Cities Institute anteriormente referida, serão 13 as cidades africanas que poderão atingir mais de 80 milhões de habitantes, batendo a concorrência chinesa; e, sobretudo, deixando muito para trás as atuais megacidades da Europa, das Américas e da Oceânia, onde a baixa taxa de natalidade e o envelhecimento da população se afirmam com evidência.
Pois bem, sobejamente sabemos que é na era da Revolução Industrial que se inicia o abandono das aldeias, quando o campesinato vira costas à agricultura, à miséria e à fome e procura melhores condições de vida nas cidades; e é, então, a partir deste momento, que se dispara o crescimento exponencial das cidades que depressa se transformem em formigueiros humanos, em colossos demográficos.
E para o mais acentuar desta fuga rural, surgem as atuais políticas desastrosas, nos aglomerados populacionais de menor dimensão, com o encerramento de postos médicos, centros de saúde, escolas, correios, esquadras de polícia e outros serviços públicos de maior ou menor proximidade, obrigando as populações a buscarem nas cidades o que mais falta lhes faz; e, obviamente, no topo dessas necessidades básicas estão, sem dúvida, o emprego, a educação, a saúde, a segurança e as melhores condições de vida.
Depois, não podemos esquecer que esta natural procura de melhores condições de vida, de mais conforto, mais segurança e felicidade nem sempre é bem-sucedida, pois o municipalismo que se vai praticando confere às autarquias locais poderes alargados que impedem, muitas vezes, que os que chegam de fora prosperem e realizem os seus projetos de vida, os seus sonhos; e, fundamentalmente, porque os senhores locais, apoiados pelos autarcas, são os que tudo podem, tudo fazem e quem tentar vingar ou impor-se é emparedado e ostracizado; e esta realidade vai, num futuro não muito longínquo, criar nas cidades barreiras e guetos de miséria e de fome, impedindo o seu crescimento e desenvolvimento, harmoniosos e bem-sucedidos.
E se pensarmos que as grandes cidades de hoje estão cada vez mais elitistas, encurraladas num suburbanismo assustador, um antiurbanismo sujo, atroz e povoado de não-lugares, sítios impróprios para viver dignamente, carregados de gente que não vive, mas sobrevive, chegamos à triste conclusão de que as classes média e média-baixa não têm direito de habitar estas cidades; e, mais evidente ainda, com o crescimento acelerado dos valores ambientais, ecológicos e humanos a vida nestas metrópoles de cimento e ferro superpovoadas, em breve, será impossível.
Agora, com a veloz expansão das redes viárias de comunicação, do domínio global das redes sociais e da facilidade de mobilidade crescente, o regresso às aldeias adivinha-se, num futuro não muito longínquo, juntamente com os meios de apoio indispensáveis (escolas, centros de saúde, esquadras de polícia, correios...) e serviços de proximidade anteriormente existentes; e, com o custo de vida, o preço da habitação e da alimentação mais baratos, bem como um estilo de vida mais seguro, tranquilo, saudável, inclusivo e ecológico que aí estão garantidos, podem restituir às aldeias a sua ancestral atratividade que, assim, cativará as populações das cidades, contrafeitas, desiludidas e cansadas de sobrevivência.
E é, então, que encontrado está, aqui, o futuro verde, inteligente, sustentável e low cost de que fala Frederico Lucas.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado