Ao falar do “dia do Senhor” (1 Ts 5, 1-11), expressão herdada da profecia e da apocalítica judaicas, o Apóstolo Paulo é incisivo, no seu apelo: “Não durmamos, (...) mas vigiemos e sejamos sóbrios” (v. 6). A razão prende-se com o caráter inesperado da vinda de tal dia, que “chega de noite como um ladrão” (v. 2). Talvez por isso, insista no apelo, servindo-se de imagens que evocam o cuidado e a proteção: “sejamos sóbrios, revestidos com a couraça da fé e da caridade e com o elmo da esperança da salvação” (v. 7).
Quando, há pouco mais de uma semana, no XXXIII Domingo do Tempo Comum, a segunda leitura terminava com o primeiro apelo de Paulo, recordei-me, de imediato, de idêntico apelo de Jesus, no evangelho do domingo anterior (Mt 25, 13: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora”) e dei por mim a pensar que vigilância e sobriedade seria um excelente tema de reflexão para o tempo do Advento que se aproxima. Aliás, vai no mesmo sentido o aviso de Jesus, no texto do evangelho do próximo Domingo (Mc 13, 13: “Tomai cuidado, vigiai, pois não sabeis quando é o momento”) e é sugestivo que, nesse texto, o apelo à vigilância ecoe no início (v. 33), no meio (v. 35) e no fim (v. 37).
Sem dúvida que “as palavras de Jesus (...) não pretendem dar informações acerca do fim e dos seus sinais, mas incutir nos crentes uma atitude de responsabilidade vigilante. A vigilância responsável exclui tanto o fanatismo apocalíptico, que projeta o futuro especulando sobre um fantasioso calendário do mundo; como a nevrose ou alienação mundana, que perde de vista a tarefa e a meta de um projeto histórico de dimensão humana” (Rinaldo Fabris, “O evangelho de Marcos”, in Aa. Vv., Os Evangelhos, I, ed. Loyola, São Paulo, 1990, p. 581).
Mc 14, 37 (assim como o texto paralelo Mt 26, 41) ajuda a compreender melhor o por quê destes imperativos de vigilância: “vigiai e orai, para não cederdes à tentação; o espírito está cheio de ardor, mas a carne é débil”. E Lc 21, 36 reforça a ideia: “Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem”. O texto em questão remete também para o contrário da vigilância: “Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço” (Lc 21, 34-35).
Num outro texto, pelos mesmos motivos, Lucas insiste no assunto (Lc 12, 40: “Estai preparados”), sugerindo, no v. 35, que mantenhamos os rins cingidos e as lâmpadas acesas, como era próprio do trabalhador ou do viajante.
A vigilância sugere atenção, zelo, diligência, cuidado ou precaução. Tanto orienta para nós próprios como para os outros e exige sempre esforço e empenho. O seu contrário é a sonolência e o adormecimento das consciências, males de que vai padecendo quem vive voltado para o que é fácil, sedutor e efémero. Daí o apelo de Paulo: “Não durmamos” (1 Ts 5, 6).
A sobriedade pode significar frugalidade, temperança ou moderação. Orienta para a contenção na comida e na bebida, para a moderação nos sentimentos, pensamentos, desejos e palavras. Assim se evita muitos problemas (na saúde e nas relações) e sobra sempre alguma coisa para partilhar. Aliás, diz-nos a experiência que, em tudo, conter-se é fundamental para se valorizar mais e saborear melhor.
Uma vida vigilante e sóbria cinge-se ao que é estritamente essencial, submete-se a um constante processo de revisão e cuida laboriosamente do que é importante. É para aí que nos remete o Tempo do Advento.
Autor: P. João Alberto Correia