Ignoro se alguém já disse isto que vou dizer, mas, para o caso também pouco ou nada interessa, porque é uma verdade que precisa de ser lembrada e respeitada insistentemente, não fora uma verdade grande e redonda como o próprio mundo:
O futuro deste país passa, sem sombra de dúvida, cada vez mais pelas nossas escolas.
Ora, isto significa que a Educação, hoje, –que édar e garantir futuro, seja às crianças, seja aos jovens –estáparaa felicidade e progresso do nosso povo, como as asas estão para os pássaros ou as velas para os moinhos; e porque a instituição familiar atravessa uma grave crise de valores e identidade, às escolas caberá cada vez mais, o papel, quase exclusivo, de preparar e definir o futuro dessas crianças e jovens.
Mas, vejamos,muito cedo, com poucos meses ou anos de vida, as crianças, arrancadas ao seio dafamília, são lançadas nos berçários, creches e infantários, onde as esperam muitas coisas lindas, muitas coisas boas, mas, paralelamente, muita frustração, muita instabilidade emocional, muita carência afetiva; e, por isso, felizes são aquelas que podem usufruir atéaos quatro, cinco anos do amparo, do calor do ninho familiar nas 24 horas do dia.
A meu ver, serão mais as desvantagens, os prejuízos do que as vantagens, os benefícios resultantes deste afastamento precoce de casa; sou mesmo um defensor acérrimo, que a minha experiência de trinta e seis anos de professor e educador abona, da permanência das crianças, em casa, o maior tempo possível antes da entrada para a escola.
Podem-me contrapor que, com a entrada o mais cedo possível nas escolas, as crianças ganham avanços significativos em termos de convivência, sociabilidade e gestão de conflitos; mas, o que perdem em afetividade, controlo de emoções e equilíbrio comportamental, vai inexoravelmente repercutir-se no crescimento harmonioso, seguro e integral da sua personalidade.
E, então, para que saibam que não estou a fazer demagogia, nem a falar de cor, conheço muitas crianças na nossa e noutras cidades que sóprivam e se enternecem com os pais, verdadeiramente, aos fins-de-semana, porque, quando diariamente estes chegam após o trabalho, os filhos já dormem e quando saem, de manhã, ainda não acordaram; e quem os substitui na recolha e entrega nas instituições educativas e escolares são normalmente os avós com quem, em muitos casos, vivem todos os dias ou os vizinhos e, mais raramente, as empregadas.
Pois bem, jáque as coisas são, têm que ser assim, seja por necessidades laborais e da organização da sociedade, seja por influência das teorias marxistas-leninistas, maoistas e trotskistas que impedem as famílias de educar os filhos, entregando esta tarefa, quase exclusivamente, ao Estado, não há forma capaz de manter as crianças no seu meio natural durante os primeiros anos de vida; e, deste modo, às escolas passam a competir, forçosamente, as mais elementares tarefas educativas de orientação, ocupação e formação que, em primeiro lugar e por inerência genética e direito de parentalidade,às famílias devem ser garantidas e acometidas.
Ora, se as crianças e jovens, hoje, passam mais tempo nas escolas, nas ruas, nos salões de estudo e de ocupação de tempos livres, com as amas e as criadas ou com os vizinhos do que nas próprias casas, é preciso e urgente que o Estado tenha em conta esta triste realidade; e, sobretudo, tenha de conferir às escolas e instituições similares mais e maior autonomia e responsabilidade, chamando os pais, os professores, os governantes, os empresários e a sociedade em geral ao consenso e à participação conjunta e ativa.
Mas, como? Penso que não me compete decidir e, muito menos, aqui traçar diretivas, exarar preceitos, mas tão-sóabrir o debate, dar pistas para a reflexão de todos os interessados na educação das crianças e dos jovens; e, na certeza de que a palavra, a última palavra cabe aos responsáveis pela governação, podendo começar por ver e avaliar o que de importante e bom se faz já em certos países que primam pelo investimento sério na educação infantil e básica e seguir-lhes o exemplo.
Porém, e para que não se tranquem as portas sódepois de a casa arrombada e roubada, não tenhamos dúvidas nem ilusões de que cada dia que passa é sempre cada vez mais tarde e até porque, quer queiramos, quer nãoofuturo destas crianças e jovens jácomeçou... ontem.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
Verdade grande e redonda
DM
11 setembro 2019