São dados estatísticos: Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo, tendo à sua frente, apenas, a Finlândia, a Itália, a Grécia e o Japão; e, segundo as previsões mais pessimistas, até final da presente década, poderá subir à terceira posição, embora a presente pandemia que nos tem atingido possa inverter esta tendência, devido à vitimização que leva a cabo sobre esta faixa etária.
Para esta situação contribui a escandalosa taxa de natalidade, incapaz de se inverter quer queiramos, quer não; sobretudo, por culpa de sucessivos governos que não criam incentivos aos casais e, igualmente a par com ideologias políticas extremistas de extrema-esquerda, que facilitam, apregoam e promovem novos conceitos e práticas de egoísmo social e exortação do facilitismo de bem-estar e de entrega a um hedonismo, consumismo e relativismos larvares.
Pois bem, regressando aos nossos velhos, é evidente que a maioria dos utentes de lares e de outras instituições de acolhimento se pudesse deles fugir, não duvido de que fugia, e nesta impossibilidade de o fazer está a inexistência de um lar, uma família que os acolhesse e onde, seguramente, se sentiriam muito mais felizes e úteis.
E porquê? Fundamentalmente porque ser velho no nosso país é uma condição de vida desvalorizada, desapoiada, inconsequente, devido às tais ideologias reinantes para quem o que mais importa é viver no prazer e na promoção do consumo e do materialismo; e essas outras tretas que nos vendem de que velhos são os trapos, de que a velhice é um estado de espírito e de que por aí muito se veem velhos de dezoito e jovens de oitenta anos não passam de chalaças cómicas para amenização dos dramas existenciais.
Até porque a qualidade de vida na velhice tem de estar ligada e depender muito da independência, da individualidade, da interdependência focalizadas na saúde, no movimento físico e na estimulação mental com envolvência familiar e conexão com a comunidade; e estes não são seguramente os pressupostos existentes na maioria das instituições de apoio à terceira e quarta idades.
Ora, para além do conflito intergeracional que sempre existe, à maioria dos nossos velhos falta afeto, segurança, compreensão, diálogo, ocupação criativa e funcional; e o que no seu dia-a-dia vivem é o estado de solidão e de maus tratos psicológicos resultantes da imposição de silêncios, de posturas físicas estáticas e agressões verbais e morais (se lhes fosse consentido, muitos velhos diriam: deixe-me falar, não me mande calar, não me ralhe, pegue-me na mão... )
Na minha infância, os velhos tinham um lugar reservado e certo em casa, à volta da família, no aconchego de um lar; e nós crescemos a aprender com eles os maiores segredos e valores das coisas e da vida, como, igualmente a respeitá-los, a protegê-los, a ampará-los, a amá-los; e a velhice descartável como tanto se pratica, hoje, não existia, porque, mesmo na inexistência da família, sempre havia um vizinho ou um amigo presente para deitar uma mão, como se dizia.
Agora, a pandemia que nos atormenta está a ensinar-nos a sermos cidadãos mais responsáveis mais generosos, mais autónomos e mais solidários nas nossas atitudes e tomadas de decisões, quer individuais, quer coletivas; e, aqui, o exercício de cidadania responsável marca ativa presença e tem em primeira conta os nossos velhos para que não sejam considerados e tratados como um peso, um estorvo social, um encargo económico para o Estado e vista como um desafogo, um alívio económico-social e, até, como um descarte moral, a sua morte.
E quando já por aí se ouve quem argumente que, perante a falta de meios médicos, como, por exemplo, ventiladores ou camas nos hospitais, se dê aos mais novos, porque mais válidos, a prioridade no direito à vida, este é o exemplo, o mau exemplo de uma sociedade acéfala, eutanasiada, desumana e imoral; e quando a verdade, a única verdade e liberdade será criar as condições e os meios terapêuticos para que não se tenha de chegar ao absurdo de selecionar quem deve morrer em vez de quem, uma sociedade que não segue este caminho, não pratica esta moralidade, mais não é do que uma sociedade desumana, criminosa, negadora dos verdadeiros valores morais e espirituais.
Por isso, precisamos de uma urgente revolução moral, porque não podemos viver no pressuposto de que a velhice dos nossos avós e pais não pode ocupar o nosso espaço, valer-se do nosso dinheiro, condicionar o nosso tempo e os nossos afetos; aqui a sabedoria chinesa e muçulmana é um exemplo vivo para nós, ocidentais, na forma de tratar, de acarinhar, de valorizar os velhos; porque deles fazem donos e depositários da sabedoria, verdade e nobres exemplos de vida que a todos servem e complementam.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado