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Vacina não vacina: tome um VICA

A história conta-se em poucas linhas e ilustra bem como a hipocrisia e o vale tudo andam de mãos dadas por estes dias. Numa aula de formação de Engenharia da Qualidade, o formador questionou-nos sobre o valor da perceção de risco, confrontando-nos com o seguinte dilema: num avião, desencadeia-se um processo de despressurização, caem as máscaras de oxigénio. Uma mãe viaja com o filho ao lado. Tem de tomar uma decisão rápida: a quem colocar primeiro o equipamento que pode salvar a vida e ambos. O nosso instinto escolhe o filho. Há dúvidas? Muitas. Se colocar a máscara ao filho, o mais certo é perder os sentidos; se colocar a máscara e ganhar fôlego pode ajudar de seguida o filho e mantê-lo em segurança até que o processo de pressurização seja reposto. Este episódio ajuda-nos a perceber que a polémica instalada em torno do vacina não vacina as figuras do Estado e os decisores políticos, é tudo menos responsável. Numa outra dimensão que a Arte da Guerra nos ensina, é que se cortarmos a cabeça ao General, não há estratégia e sem esta, não há planeamento e sem este não há planos tático e técnico que resistam, reinando então, a desorganização, o abandono, o salve-se quem puder. É fácil perceber que a opção deve ser estratégica e combater a perceção errada na Opinião Pública, de que se está perante um privilégio, é uma obrigação. O tempo agora é de contenção verbal para evitar a verborreia desnecessária, criadora de dúvidas e base para a desinformação e para o acicatar de ânimos que em nada contribui para a solução do problema. A gestão de Risco assume particularmente ênfase nesta fase e nunca como hoje, a capacidade dos decisores foi posta à prova de forma tão brutal e única. Não é uma questão de quem faz melhor, mas de quem percebe que não se pode andar a contar espingardas, quando na frente da batalha, o inimigo viroso continua a matar sem piedade. É preciso não perder de vista que Vivemos num mundo VICA: Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. O conceito nascido no seio do exército americano pretendia caracterizar os cenários de guerra que se poderia encontrar na frente da batalha; foi adaptado ao mundo empresarial por ser útil a quem decide. Porquê Vica?: *Volatilidade: a palavra volátil caracteriza algo que é incerto, instável e em permanente mudança; Incerteza: por estarmos num mundo muito volátil, tudo pode acontecer, assim sendo a incerteza é uma constante em qualquer organização; Complexidade: a junção da volatilidade com a incerteza dá origem a um mundo empresarial cada vez mais complexo; Ambiguidade: quando juntamos as 3 características anteriormente referidas o resultado é a imprevisibilidade nas decisões das organizações, culminando na ambiguidade. Se os decisores políticos, cientistas, médicos, técnicos e cidadãos não percebem isto, então teremos pela frente a mais dura das batalhas: a sobrevivência. Garantir nesta fase é uma palavra que cheira a farsa e deve ser banida: ninguém pode garantir o que não pode dar. Os cidadãos não podem nem devem abstrair-se do que se passa, na medida em que são parte da solução e a origem do problema. Não podemos, por isso, pedir aos decisores que tomem medidas e nos salvem o coiro, quando em simultâneo, tomamos decisões de risco por estarmos enfeitiçados por um bem, que sendo maior, de nada vale perante o combate que enfrentamos: a Liberdade. Já fomos elogiados por sermos combativos e disciplinados, merecemos o reconhecimento dos outros pelo que estávamos a fazer e de repente apagamos e decidimos alegremente, espernear as nossas frustrações, os nossos receios, esbanjando o sacrifício inicial em nome de um enfeite virtuoso, mas cheio de armadilhas. Uma delas é a que nos afasta da realidade, da dureza dos números, para nos agarrarmos ao egoísmo mais primário que nos arrasta para a festa em estado de guerra. Temos o direito de exigir, de opinar, de manifestar descontentamento sem perder de vista que o primeiro alvo do descontentamento somos nós e não os outros. Precisamos de uma máquina oleada na administração das nossas ansiedades, capaz de conduzir as nossas perceções de risco a bom porto, apesar da tempestade que a cada momento pode destruir a esperança de uma rápida solução. Discutir, pôr em dúvida, ou simplesmente ignorar não é, por certo, boa conselheira. *Rui Pacheco,Certification Technical Manager
Autor: Paulo Sousa
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31 janeiro 2021