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Urge desconfinar com segurança

Apesar dos dias soalheiros que tivemos na última semana, o receio e a melancolia continuam a pairar nas diversas formas de expressão da maioria dos portugueses. Nem a amenidade do tempo, como querendo anunciar a primavera, tem feito mudar este retrato de temor e de incerteza.

A pandemia que nos invadiu há cerca de um ano não só nos veio atormentar a vida, alterando hábitos e comportamentos, como também arrasou vários setores da economia, colocando muita gente numa situação de asfixia financeira e de insegurança laboral.

Um longo ano, onde em dois extensos períodos fomos obrigados a um confinamento coercivo, onde a liberdade de circulação foi condicionada, em que as escolas fecharam em pleno tempo letivo e quando muitas atividades de comércio e de serviços tiveram de fechar a porta.

O segundo destes extensos períodos ainda está em vigor e, apesar da melhoria muito significativa quer do número de infeções, quer do total de internamentos, assim se vai manter até ao próximo dia 11. Nesse dia, António Costa prometeu dar a conhecer o plano de desconfinamento que avisou ter de ser cuidadoso e gradual.

Um plano que se espera rigoroso e tanto quanto possível objetivo, onde os dados da ciência sejam contemplados e com uma monitorização rigorosa da peste que nos veio infernizar a vida, de modo a evitar retrocessos indesejáveis.

É urgente desconfinar!

Toda a gente está farta dos condicionalismos que, em prol do bem comum, foram necessários para conter a pandemia. Porém, por haver sinais evidentes de muito desespero em largas franjas da população, é preciso acender uma luz de esperança.

Hoje, fruto da experiência vivenciada, do melhor conhecimento do vírus e da chegada das vacinas, é necessário programar o regresso à normalidade possível com passos firmes e seguros. É isso que ansiosamente os portugueses esperam do Primeiro-ministro.

As consequências mais visíveis desta terrível doença devem estar sempre presentes. Os milhares de vidas perdidas, o sofrimento de quantos perderam os seus entes queridos e daqueles que lutam contra as sequelas deixadas pelo vírus, a amargura da solidão dos mais velhos, o esforço heroico dos profissionais de saúde que souberam resistir a todas as condições adversas nunca podem ser esquecidos. Em diferente patamar, não podem ser ignorados quantos perderam os seus negócios ou os seus empregos.

Os efeitos mais ocultos, tão ou mais importantes para o futuro das novas gerações, devem ser convenientemente acautelados. Às crianças e jovens (principalmente os mais vulneráveis) que em dois anos letivos sucessivos foram arredados das aulas presenciais, urge evitar que esta circunstância lhes condicione o futuro e os impeça de galgar o elevador social. Do mesmo modo, há que acautelar a saúde mental dos que mais sentiram os efeitos do isolamento social ou dos resultados económicos da crise. Lembro com particular relevância os pais daquelas crianças e jovens que, muitas vezes em condições extremamente precárias, tiveram de suportar as condições dos seus ofícios e, simultaneamente, dar o apoio possível aos seus filhos.

O regresso à normalidade possível é tão urgente, como fazê-lo com segurança é um imperativo que não pode ser descuidado. As dúvidas sobre a contagiosidade das novas mutações do Sars-CoV-2 e a eficácia das vacinas sobre estas novas variantes ainda ensombram o nosso futuro coletivo.

Acredito que o aliviar das medidas de contenção da pandemia se possa iniciar pela abertura gradual das escolas, começando pela creche e pelo 1.º ciclo e pelo reabrir do pequeno comércio. Regularmente, de quinze em quinze dias, a par de uma avaliação dos resultados, ir dando pequenos passos no sentido da normalização plena que todos desejamos.

Julgo que deste modo será possível iniciar um processo de desconfinamento com segurança e dar um sinal de esperança aos portugueses.

Aguardemos pela comunicação do Primeiro-ministro, António Costa.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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2 março 2021