E se, inesperadamente, a Humanidade fosse assaltada por um vírus bom, um vírus de Amor? E, num ápic2, uma doce pandemia, uma pandemia de solidariedade, generosidade e partilha a todos infetasse? Seria, obviamente, a desejada bênção, o impulso salvador a pôr fim ao drama que vivemos e a que já se vai chamando a 3.ª guerra mundial; sem dúvida, não uma guerra de estratégia e tática castrenses, mas de ataque biológico, de insanável luta microbiológica.
Mas, perante uma pandemia de Amor, seria bom de ver e sentir uma harmonia universal a contagiar, a irmanar todas as nações e povos; e a torná-los entre si mais tolerantes e cooperantes; e, gloriosamente, mais generosos e fraternos, transformando o mundo, esta aldeia, afinal, global, num imenso paraíso.
Pois bem, contrariamente a este anseio e sonho de mudança , a Humanidade vive o pânico do constante ataque, traiçoeiro e letal, de um SARS –COV-2 que já fez milhões de vítimas e cuja virulência não cessa; e os esforços da ciência na descoberta de meios de lhe fazer frente, constantes e resistentes, tardam em chegar a bom porto, sustendo e dominando o ser patogénico, minúsculo e invisível.
Ademais, a juntar a esta onda de mortalidade da denominada Covid-19 sofremos os maleficios do confinamento e distanciamento social que isolam famílias, amigos, vizinhos, a sociedade em geral; e, assim, corremos sérios riscos de perder a liberdade e a solidariedade, abrindo portas ao consequente avanço do individualismo e do egoísmo social, valores bem caros para os defensores do populismo e das restrições aos direitos humanos fundamentais e universais.
E, se o objetivo primeiro do regime democrático é insofismavelmente a redução do distanciamento social entre classes, entre poderosos e fracos, entre opressores e oprimidos e, igualmente, entre governantes e governados, tais conquistas e valores da liberdade e solidariedade cessam e extinguem-se nas atuais circunstâncias em que vivemos; e a que acresce uma crise económica, social e axiológica ainda de difícil definição e consequências que pode atingir proporções devastadoras.
Depois, se chamarmos à colação o drama que atinge os nossos velhos, retidos em casa ou em instituições de solidariedade social (lares, residências e hospedarias seniores), ele define-se pelo medo, a solidão e o abandono – sentimentos dramáticos que lhes assistem; e, fundamentalmente, porque, assim, privados são dos afetos familiares, da companhia dos amigos e do usufruto, simples que seja, do ar puro, da beleza de um jardim ou de um pôr-do-sol, eles definham e estiolam.
Ainda as nossas crianças também elas afastadas do convívio, das brincadeiras e das interações entre pares, crescem num tempo e num mundo assético e inverosímil que as deixa desarmadas e frágeis para enfrentarem o dia-a-dia castrador da segurança, do bem-estar e dos afetos imprescindíveis ao seu crescimento e desenvolvimento harmonioso; e, claramente, presas ao casulo familiar e ao espartilho de uma escola que lhes corta os voos, elas sofrem os efeitos nefastos da falta do salutar convívio e relacionamento social, bem como a restrição à liberdade numa evidente ausência de compromisso, de mútua confiança, de companheirismo e da negação do simples abraço.
Agora, se bem pensarmos e sentirmos, estas catástrofes mundiais têm sempre por alavanca a mão e o engenho do Homem que agride e distorce a Natureza com ações que modificam e desequilibram o ciclo natural/biológico dos seres, mesmo que microscópicos; e só o retrocesso deste meio malsão de enfrentar a Natureza pode inverter o sentido da vida em comunidade e pôr fim a tantos males que, hoje, afligem a Humanidade.
E só, então, poderemos finalmente pensar na tal pandemia de Amor por troca com esta pandemia de Morte que nos domina; e, com segurança e felicidade, passarmos a viver num mundo de paz, de reconciliação, de partilha, de compreensão e de fraternidade entre todos os países e povos e que seria o fruto mais doce do consequente vírus do Amor.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado