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Uma “ecologia integral”

A questão já dividiu a recente Cimeira do G7 na Sicília, com todos os líderes a reafirmarem o seu compromisso em relação ao Acordo, à excepção de Trump. Os Estados Unidos juntaram-se assim à Síria e à Nicarágua, os dois únicos países que não aderiram ao Acordo de Paris, a primeira por estar em guerra civil há mais de seis anos, a segunda por entender que as metas do Acordo estão aquém do desejável (não são suficientemente ambiciosas).

Tal Pacto entre as nações comprometeu todos os países a dar passos decisivos em favor do ambiente, agendando mesmo, para a segunda metade deste século, o fim dos combustíveis fósseis. No entanto, além de alguns Estados da federação americana não seguirem o Presidente, muitas empresas seguirão o rumo já traçado: mais de dois milhões de americanos trabalham em empresas de energia eólica e solar e de eficiência energética, 16 vezes mais do que nas empresas ligadas ao carvão. Assim, nem na América a sua voz será atendida. O retrocesso civilizacional provocado por Trump é tal que é crime contra a humanidade.

2. Um dos pontos principais do Acordo é manter o aumento da temperatura média mundial “muito abaixo de dois graus celsius”; com efeito, o aquecimento global – amplamente documentado e aferido por dados científicos – é inegável e está afectando os minerais, vegetais e todas as espécies e formas biológicas, em diferentes estádios da sua evolução, também a vida humana. Um factor que está a aumentar o efeito estufa é o lançamento de gases poluentes na atmosfera, sobretudo os derivados de combustíveis fósseis (a queima do óleo diesel e da gasolina nos grandes centros urbanos tem acentuado o efeito estufa): o dióxido de carbono (gás carbónico) e o monóxido de carbono ficam concentrados em várias zonas da atmosfera, donde resulta uma camada que bloqueia a dissipação do calor; aliás, esta camada de poluentes, tão visível nas grandes cidades, funciona como um isolante térmico do planeta Terra: o calor fica retido nas camadas mais baixas da atmosfera, trazendo graves problemas ao planeta.

Se pesquisas recentes mostram claramente que o século XX foi o mais quente dos últimos 500 anos, num futuro próximo, o aumento da temperatura provocado pelo efeito estufa provoca o fenómeno de derretimento de glaciares polares e o aumento do nível dos mares; como consequência, muitas cidades do litoral poderão desaparecer do mapa. Com efeito, “se a tendência actual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras” (n.º 25) – conforme salienta o Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si.

3. Como agravante, nem a própria vida humana escapa: cientistas já sabiam que a poluição pode provocar problemas no pulmão e no coração; agora, um estudo britânico encontrou, pela primeira vez, partículas de poluição no cérebro humano; então, além de dificuldades respiratórias e problemas cardíacos, a poluição causa mais de três milhões de mortes prematuras todos os anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Papa Francisco, nessa sua Encíclica, denomina esta situação complexa de ecologia integral, afirmando: “O tempo e o espaço não são independentes entre si; nem os próprios átomos ou as partículas subatómicas se podem considerar separadamente. Assim como os vários componentes do Planeta – físicos, químicos e biológicos – estão relacionados entre si, assim também as espécies vivas formam uma trama que nunca acabaremos de individuar e compreender. Boa parte da nossa informação genética é partilhada com muitos seres vivos.

Por isso, os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, quando resistem a integrar-se numa visão mais ampla da realidade” (n.º 138). Esta interpretação integral e holística é essencial: não se trata somente da relação do desenvolvimento com implicações na natureza, mas do ser humano para com a Terra como um todo, de modo a sustentar as condições físicas, químicas e biológicas da vida e assim garantir um futuro para a humanidade.

O autor não segue o denominado acordo ortográfico.

 

Autor: Acílio Rocha
DM

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21 junho 2017