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Uma autoestrada (A31) no coração da cidade

Para além de instrumento avaliador do temperamento e caráter de quem o conduz, o automóvel ainda é o melhor elemento de afirmação pessoal e social; e, assim, portugas há, que agarrados à rosca, como a rã da fábula que inchando queria ser boi, buzinam, aceleram e insultam num permanente desrespeito pelo código das estradas e clara demonstração de que mais não são do que laparotos, broeiros e cascas grossas. Depois, mesmo não tendo onde cair morto, o sonho de qualquer bicho careta é ser dono de um quatro rodas mesmo que esteja podre, mas que, ao menos, dê para ir ao Domingo à missa da paróquia ou levar a patroa a ver o mar; e, a partir daqui, sendo o que Deus quiser e o boguinhas consinta, as estradas transformam-se em arenas de contendas várias e, quantas vezes, corredores de invalidez e, até, de morte. Pois bem, esta patética realidade tem igualmente reflexos ativos no quotidiano das nossas cidades com constantes pontapés nas elementares regras de cidadania entre automobilistas e peões com evidentes desvantagens para estes últimos; e de que resulta uma óbvia ameaça à segurança, convívio e tolerância entre algozes e vítimas. Ora, a nossa bimilenar cidade de Braga não foge à regra e é ver frequentemente transgressões obscenas às elementares regras do código da estrada, mormente no que respeita a prioridades, velocidade, ultrapassagens e estacionamento; daqui resultam, como não podia deixar de ser, eminentes perigos para os peões, sobretudo idosos, crianças e deficientes, quase sempre vítimas inocentes de condutores que de encartados apenas exibem má-educação, displicência e falta de civismo. Mas, vamos a factos. As avenidas 31 de Janeiro (antiga avenida Salazar) mais a avenida Dr. Porfírio da Silva, desde a Praça Humberto Delgado (Quinta da Capela) ao Largo da Senhora-A-Branca, totalizam uma extensão de mil e duzentos metros de que resulta a mais comprida e linear artéria da cidade; e, então, a partir do Largo da Soutinha (cruzamento da rua dos Barbosas com a rua de Baixo) com um único sentido de trânsito ascendente, a avenida 31 de Janeiro transforma-se para muitos condutores numa pista de corrida fórmula um a que nem sempre os três cruzamentos com semáforos conseguem pôr cobra. Vai daí, estes mil e duzentos metros de via, a que um fiel leitor destas Nortadas batizou brilhantemente de A31 (autoestrada 31), são uma constante ameaça a qualquer peão que se faça às passadeiras nos cruzamentos sem semáforos; é que esses fângios de meia tijela, bota cardada e crista de galo, numa exibição bacoca das suas bestas de lata e, aproveitando a onda verde semafórica, pisam o acelerador com tamanha veemência que facilmente se candidatam a acabar a sua aventura num montão de chapa batida; e, muita sorte se não forem parar às urgências ou à morgue do hospital e levando juntamente algum peão. Solução para refrear os ânimos destes betinhos do asfalto? A meu ver, uma de três: ou colocação de semáforos em todos os cruzamentos ou vigilância policial apertada ou uso de radares; e, quando se fala em reduzir para trinta quilómetros por hora a velocidade nas cidades e localidades, como vão estes aceleras conter a sua fúria e dar satisfação aos seus complexos de inferioridade sobre os besouros de lata? Depois, a existência de uma autoestrada no coração da nossa cidade ou de outra não lembra ao diabo. Já agora que estamos com a mão na massa, é necessário e urgente uma intervenção policial na rua de Goa (a mais pequena artéria da cidade que liga a rua 25 de Abril à rua do Raio); é que esta pequena via rodoviária com duas faixas e um único sentido de trânsito, afinal é um bico-de-obra. É que a faixa esquerda está reservada aos serviços do Hospital Privado, restando a faixa da direita para o escoamento do trânsito; e o que seria suficiente, só que muita gentinha quadrada aí abandona a sua viatura para uma rapidinha ao Hospital, criando engarrafamentos frequentes, sempre que a faixa da esquerda se encontra ocupada (quase sempre) por ambulâncias ou veículos em emergência. Por isso, se reclama a quem de direito um policiamento musculado que ponha termo à frequente bagunçada ali reinante; e até para que possamos finalmente exclamar que - É BOM VIVER EM BRAGA! Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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11 abril 2018