Hoje, dia 3 de setembro, comemora-se o desembarque das tropas aliadas na costa italiana durante a II Guerra Mundial que marcaria o início do fim do regime fascista de Mussolini.
Recordo esta data, expondo algumas turbulências que tentam arrastar a Europa para tempos de incerteza e de medo, sem esquecer de espraiar um olhar sobre o meu país.
Sobre a Europa, ou mais concretamente sobre o projeto de união que nos tem garantido o progresso e a paz nas últimas sete décadas, é opinião generalizada que os perigos da sua desagregação nunca foram tão reais. De facto, à ameaça concreta da saída do Reino Unido, junta-se a eclosão de populismos soberanistas e a correspondente ascensão de formações xenófobas e racistas um pouco por todo o espaço europeu.
Os exemplos proliferam e a juntar aos casos mais significativos de alguns países do leste como a Hungria, temos o aumento expressivo da extrema-direita na Alemanha, como revelam os resultados eleitorais do último domingo nos seus estados da Saxónia e Brandeburgo. Apesar de ser uma boa notícia, nem a possível alteração do governo em Itália, com a exclusão do partido ultradireita Liga Norte de Matteo Salvini, deve serenar ninguém.
Quando se assinala o início de um dos mais terríveis conflitos que envolveu a generalidade da Humanidade, será bom não esquecer as lições da História e delas tirar os melhores ensinamentos.
Se a situação atual do Velho Continente não para de nos inquietar, circunscrevendo a observação à nossa realidade interna, penso igualmente que esta não deixa de nos perturbar e surpreender.
Em bom rigor, em manifesto contraciclo com o que se passa além-fronteiras, sobretudo em vésperas de importantes atos eleitorais, há contradições e perplexidades que se misturam e não deixam de causar um certo espanto.
Desde logo, dando crédito aos estudos de opinião, vulgo sondagens, que vêm sendo conhecidos, o povo português parece satisfeito, ou pelo menos resignado.
Acreditando nos resultados dessas pesquisas que vão dando ao Partido Socialista uma confortável maioria para voltar a governar, supostamente os portugueses não usam a memória, pouco se importam com as ameaças conjunturais que pairam sobre a economia, não valorizam a subida significativa da carga fiscal, a progressiva degradação de serviços públicos fundamentais e, muito mais, parecem ser insensíveis não só à ingratidão, como também a um certo grau de desfaçatez.
Mas será mesmo assim?!
Será mérito do Governo que, tendo uma influência quase perfeita sobre os meios de comunicação, não faz mais do que inebriar o povo transmitindo-lhe apenas o que este gosta de ouvir? Ou será demérito da oposição que não sabe ou não tem meios para o acordar da sua letargia?
Não é verdade que um pouco por todo o lado se ouvem queixas sobre os serviços da Saúde, da Justiça, de Estrangeiros e Fronteiras, do Instituto dos Registos e do Notariado e muitos outros? E que comentário fazer dos inúmeros conflitos laborais e do correspondente surto grevista?
E que dizer das recentes afirmações do primeiro-ministro, Dr. António Costa, ao semanário Expresso acerca dos partidos à sua esquerda que o têm apoiado e lhe permitiram governar nos últimos quatro anos, principalmente sobre o Bloco de Esquerda? Não estará a ser mal-agradecido e no mínimo deselegante?
Com a campanha ainda em aquecimento, muito ainda poderá acontecer. Acredito que a dinâmica que cada formação partidária for capaz de transmitir durante a mesma, aliada ao resultado das Legislativas da Madeira, a terem lugar duas semanas antes das nacionais, marcadas para 6 de outubro, irá condicionar fortemente a formação do próximo governo de Portugal e, naturalmente, o nosso futuro coletivo.
Por tudo isto e porque este mundo conturbado em que vivemos está em permanente mudança, quando verdadeiramente se acredita em algo, não pode haver lugar à renúncia. De igual modo, sempre que se detém o poder, a soberba conduz à arrogância e ao nepotismo e, não raras vezes, leva os seus autores a encarnarem na perfeição a velha lenda do canto do cisne, ao que parece oriunda da Grécia Antiga no século III A. C. e atribuída ao filósofo Sócrates.
Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira