Como observava um amigo meu, “o tempo de férias, como tudo o que é bom, está quase a acabar”. Efectivamente, estamos na ponta final de Agosto e quando Setembro já se vislumbra, começamos a pensar que temos de voltar ao trabalho, porque o tempo de descanso tem os dias contados.
É natural que o recomeço de mais um ano laboral nos prenda a atenção. Não devemos, porém, olhá-lo como uma espécie de fatalidade. Pelo contrário, é preciso pensar que o trabalho faz parte das possibilidades positivas que a nossa natureza nos oferece.
Se assim não fosse, a linguagem bíblica (cfr. Gén. 2, 15), inspirada por Deus, não nos diria que uma das facetas da imagem e semelhança com o seu criador inerente ao homem, consiste na capacidade de transformar e proteger, com a sua actividade laboral, a realidade que Deus pôs à sua disposição. O homem foi, pois, feito e preparado para trabalhar e da sua actuação resultam todos os benefícios que a natureza criada por Deus é capaz de lhe proporcionar.
No entanto, Deus, modelo de perfeição que sempre devemos seguir e escutar, quis dar-nos o exemplo de que a fadiga própria de quem exerce uma profissão, deve ser recompensada com um descanso adequado, isto é, com um período em que se desvie a atenção dos afazeres laborais com uma forma de viver mais pacata e despreocupada, a fim de retemperar as forças necessárias para voltar ao trabalho com o ímpeto e as exigências que ele determina.
Até nisso o homem deve parecer-se com Deus, porque, como nos diz o mesmo livro da Sagrada Escritura, depois de terminar a obra da criação, Deus repousou, com a satisfação de ver que tudo o que resultara da sua acção era muito bom (Gén 1, 31. 2, 1).
Certamente que não estaríamos à espera de que Deus desse origem a coisas imperfeitas, na sua génese. Deus, que é um ser perfeito, o que realiza tem sempre o grau máximo da perfeição, tendo em conta as capacidades da realidade que é criada, os seus fins e as circunstâncias que a envolvem. Por outras palavras, tudo o que ´é criado tem a perfeição dada por Deus, a fim de que cada criatura possa levar a cabo, em plenitude, aquilo que as suas capacidades lhe permitem. Com certeza que há uma ordem natural que determina o que uma criatura pode fazer, segundo o grau de potencialidades que Deus lhe deu no seu acto criador. Não posso exigir de um irracional o que um ser humano, que é racional, pode conseguir.
Ser criatura, dizia um pensador do século passado, é ter tudo emprestado pelo criador, que lhe determina a natureza nas suas potencialidades e nos fins a que ela está destinada. Ao homem, o criador determinou que ele se parecesse consigo mesmo, ao dar à nossa natureza um vislumbre da sua imagem (Gén 1, 27. E é por isso que o homem é inteligente e volitivo, isto é, pode conhecer, compreender e explicar as coisas e delas se servir, segundo o seu alvedrio. É um ser livre, incluindo nesta sua qualidade a possibilidade de negar a Deus fazer a sua vontade, quando Ele lha pede e lhe dá todas as capacidades necessárias para a efectivar. Esta atitude humana é nefasta, porque se a vontade de Deus é sempre, no seu grau, o que há de mais perfeito, recusar fazer o que Deus nos pede é não querer fazer o que é mais perfeito, mas uma coisa atamancada. E o pecado é isto, é sempre uma imperfeição voluntária do homem, que se nega a fazer o que Deus lhe pede. Escolhe o pior em vez do melhor dum modo responsável.
Encaremos o novo ano laboral como um dom que Deus põe à nossa frente. E, enquanto tal, é um bem inquestionável e atractivo, onde cada um de nós pode empreender com perfeição tudo aquilo que Deus nos for solicitando, tendo Ele sempre presente, como atrás se observou, o que somos, as nossas possibilidades de realização, as circunstâncias em que nos movemos e o fim de cada acto laboral, Confiemos, enfim, em Deus, sabendo previamente que o que Ele nos pedir que façamos, em matéria de trabalho, é sempre o melhor e mais perfeito, ainda que levar a cabo a sua petição nos custe o esforço e o suor do nosso rosto.
DESTAQUE
Encaremos o novo ano laboral como um dom que Deus põe à nossa frente.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva