1. É verdade que o Natal é a comemoração do nascimento de Jesus; mas, dito assim de uma maneira tão fria, parece que se corre o risco de esquecer a aura de magia e de mistério que ele desperta em nós, qual saudade do paraíso perdido, um profundo desejo que suspira no fundo do coração humano. Não se trata de inteligência mágica do Natal, mas da realidade. Porque o Natal é, ao mesmo tempo, um facto histórico datado e um mistério que nos transcende e que só pela Fé se pode aceitar, porque a inteligência humana não é capaz de o entender. Para os crentes, Jesus é o Filho de Deus incarnado; para os não crentes, é apenas um homem extraordinário, bondoso, sábio, taumaturgo, um líder de não-violência que marcou a História e que muita gente continua a admirar e a venerar. A verdade é que para crentes ou não crentes a comemoração do Natal de Jesus se tornou um facto ao qual ninguém fica indiferente e se tornou património de esperança de toda a humanidade.
2. Durante muito tempo, os cristãos foram interiorizando um padrão ideológico-religioso de homem em que, para ser santo, era preciso afastar-se do mundo e devotado a Deus. É assim que temos como ícones santos que foram para o deserto e santos que se retiraram para os conventos, mas se deixou em aberto um espaço de dúvida para os que viviam a sua vida no mundo real e cuja vida não era reconhecida como santa. Estremaram-se dois mundos: o mundo religioso e o mundo secular. Hoje, começa a ganhar cada vez mais sentido no pensamento teológico o realismo da dimensão antropológica do Homem que procura Deus na vida real: em vez de fugir da realidade da vida, admite-se que só a partir da experiência humana se pode partir á procura do divino, que se esconde no mistério que transcende o humano. A procura de Deus situa-se, hoje, mais na linha horizontal da fraternidade, sem com isso negar outras dimensões da espiritualidade, pois há muitos caminhos para a realização humana. Já não se procura o céu lá em cima, de acordo com a representação ptolomaica, há muito revogada pela ciência, mas no coração do homem, onde o Espírito de Deus habita. É aí que se pode construir a fraternidade, a justiça e a paz. Quer dizer que, segundo a promessa de Jesus, a presença do divino é a de Alguém no meio de nós, a horizontalidade também tem a sua transcendência. O rosto da Igreja deve significar isso mesmo: congregar todos os homens e ajudá-los a descobrir a transcendência do que há para além do facto histórico do Natal.
3. Porque é a partir do quadro do Natal (um Menino, ao colo da Sua Mãe, que de braços abertos olha para os homens) que os caminhos do Homem se centram no mistério da vida e na Família: no Natal fala-se na reunião da família, no almoço em família, no aconchego da família, nas prendas em família… O Natal é família de Jesus que se tornou também da família humana. E é na família que nasce a admiração pelos valores do mistério do nascimento, pelo mistério admirável da vinculação afectiva que só nasce da maternidade com ternura e carinho, da confiança, do crescimento, da educação, do trabalho, da fraternidade, da solidariedade…isto é, o Natal a envolver todo o percurso da vida do homem. É assim que, embora a prática religiosa tradicional esteja a diminuir, porque há padrões que perderam sentido, o sentimento e a prática de solidariedade se têm mantido ou até crescido, como ainda há pouco se verificou a quando das campanhas de solidariedade por causa dos incêndios. Há um sentir humano e cristão do Natal que se mantém, apesar da diminuição da prática religiosa.
4. Isto não quer dizer que as celebrações religiosas do Natal não sejam também importantes: elas são formas culturais para exprimir a realidade indizível do coração que procura Deus, que exprime gratidão e louvor a Jesus na festa do seu Natal, que exprime a súplica e a conversão do coração... Mas, o templo já não é necessariamente o grande lugar de encontro dos homens para celebrar o Natal: basta ver o número reduzido de pessoas que lá se reúnem. O templo é apenas um dos lugares para celebrar o Natal. Aliás, Jesus não enviou os discípulos para os templos, mas ao encontro dos homens. Por isso, é preciso criar novas formas de templos do Natal no meio dos homens. E as celebrações religiosas nos templos usarem uma linguagem e uma simbologia que não esteja desfasada da realidade vivida, sob pena de perder significado e motivação. E o Povo de Deus reunido no templo poder exprimir os seus sentimentos nessas celebrações, o que requer que os líderes das comunidades religiosas estejam progressivamente mais próximos da vida do Povo. Aliás, a denominada “crise de vocações religiosas” pode bem exprimir esse sinal da necessidade de mudança de paradigma das formas de serviço á comunidade.
Um Bom Natal para si, caro leitor!
[O autor não escreve de acordo com o chamado Acordo Ortográfico]
Autor: M. Ribeiro Fernandes
Um Natal mais perto dos Homens
DM
24 dezembro 2017