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Um leopardo contra o mundo

  1. Leopardo à solta, aterroriza vila indiana).Aconteceu há cerca de 3 semanas, talvez por finais de Janeiro de 2019. Confesso que não consegui ver a reportagem televisiva desde o início. Porém, penso eu, tratou-se de mais um caso em que, numa das poucas zonas naturais protegidas da Índia, os seus limites são mais uma vez desrespeitados pela expansão das inúmeras aldeias e respectivos novos campos de cultivo. Um fenómeno que aliás, também vai ocorrendo com frequência em África. O que se passou, foi que o leopardo, vindo do mato, andou a fugir, dentro da vila, cerca de 5 horas, atacando indiscriminadamente todos os que dele se aproximavam, ferindo alguns com gravidade, saltando de muro em muro, encontrando sempre multidões de pessoas inadvertidas, que logo fugiam em todas as direcções. Finalmente acabou por ser atingido com dardos tranquilizantes num pequeno armazém onde se tinha refugiado. Uma reflexão à parte, que as imagens também sugerem, é que num mundo sem fronteiras (como pretendem os liberais), as sobrepovoadas e miseráveis regiões da Índia ou da China derramar-se-ão facilmente sobre as regiões ricas e menos povoadas da Europa e América do Norte, como já vai acontecendo, aliás. Mas isto foi só um aparte…

  2. Antes, pensávamos que os Parques Naturais eram sagrados).Quando, há décadas atrás, todos estes parques naturais, regionais, reservas biológicas ou zonas de paisagem protegida foram sendo criados, as pessoas normais pensavam que iriam ser uma espécie de santuários da Natureza, onde o que acontecia de depredação e estrago nas zonas à volta, aí não teria lugar. Pura ilusão, que sobretudo o liberalismo económico, a corrupção e a acentuadíssima degradação do nível cultural das pessoas (não me refiro, é claro, à “cultura” tecnológica…) ajudaram a desfazer. Em Portugal, p. ex., basta recordarmos, a frequência e a extensão dos fogos devastadores nos Parques do Douro Internacional, Serra da Estrela, Gerês, e Alvão (Marão). Ou no Pinhal de Leiria, tapada de Mafra, serra de Monchique (e já nem falo das zonas não classificadas afectadas pelos grandes incêndios de 2017). Basta recordarmos a destruição da paisagem decorrente da instalação das largas dezenas de “parques” eólicos que, desde Sócrates, passaram a polvilhar os cumes de quase todas as nossas serras (em vez de se ter optado pela energia solar foto-voltaica e das ondas do mar). Basta recordarmos a desnecessária destruição por barragens, de longos desfiladeiros paisagisticamente excepcionais como eram os do Sabor e do Tua; para mais, tratando-se de rios que são quase secos na metade quente do ano. Basta recordar esse “mundo sem lei” das pedreiras (vide o incrível caso de Borba…), com frequência licenciadas (hoje e no futuro) em lugares em que os belos e milenários penedos graníticos ou xistosos deviam era ser protegidos em nome da “Paisagem” (um conceito estranho e avesso à actual civilização digital).

  3. Os grandes animais de África estão quase todos ameaçados).Uma civilização como a nossa, a liberal-democrática e impiedosamente capitalista (como é a actual) habilita-se a ficar para a História como aquela que permitirá, p. ex., a extinção do noitibó de nuca vermelha e do lince ibérico (em Espanha); ou dos leões, mabecos, búfalos, gorilas, rinocerontes, palancas, girafas, elefantes, várias espécies de macacos e de antílopes (em África). Devido à explosão demográfica no “continente negro”, à desmatação em busca de madeiras preciosas e à expansão das áreas agricultadas. Não há qualquer desculpa que se possa inventar, para que todas estas espécies heráldicas possam desaparecer da face do planeta. Desde a minha adolescência que me tornei um ávido consumidor das obras enciclopédicas (em livros e documentários) de David Attenborough e do grande Félix Rodriguez de la Fuente. Nunca sonhei que, passados todos estes anos, a ameaça fosse tão severa. Vivemos num “mundo feio”… e é mesmo preciso ter mão nele. Pela razão ou pela força. Senão, seremos indignos perante o Criador de todas estas belezas e riquezas. Ele não se vai esquecer de nós, garanto…

  4. Uma lição que me deu um leopardo do Zoo de Lisboa).Durante anos fui um fiel visitante do zoo de Lisboa (até cheguei a namorar lá). Fascinava-me a variedade da Criação e dos muitos comportamentos que observava, p. ex., dos babuínos. Certa vez (seguindo o que aprendera com a malograda Dian Fossey e na “Fauna”) bati com os punhos no meu peito para “desafiar” um gorila enjaulado e a previsível reação dele foi perigosa e imediata. Outra vez, visto que admiro os grandes felídeos, deu-me para agitar uma casaca perto de um leopardo e testar a rapidez da sua reacção. Tive sorte: o bicho apanhou logo a manga da casaca, que se desprendeu. O leopardo ficou com ela e eu, intacto mas com a casaca estragada. Muitas dezenas de milhares de anos depois de termos emigrado desde África, nós os homens do séc. XXI d. C. ainda não perdemos o medo instintivo relativo a leões e leopardos, animais que aliás também já povoaram largas partes da Eurásia. Porém, hoje já podemos tranquilamente admirar a sua beleza. E trabalhar activamente, politicamente (militarmente, se for caso disso) para a conservação de todas essas zonas naturais que ainda resistem por esse belo planeta afora. Só de pensarmos que o rinoceronte está à beira da extinção devido à superstição oriental de que os seus chifres são “medicinais” ou “afrodisíacos”, se consumidos em pó…


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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19 fevereiro 2019