Estávamos em novembro de 2019 e naquele que foi o décimo sétimo encontro nacional das Associações Juvenis, era lançado o apelo para que as autarquias mudassem o rumo das suas políticas, de forma a ajustarem-se às necessidades dos mais novos. O apelo, com razão de ser num passado sem Covid, ganhou nova expressão no ano em que a nova geração foi posta à prova como nunca tinha acontecido desde o 25 de Abril e da adesão de Portugal à União Europeia. Pedia-se, então, uma atitude distinta da classe política: que contasse com os jovens para concertar políticas através de mecanismos de codecisão. Não exclusivamente através dos orçamentos participativos, mas de metodologias que permitissem a concertação de uma visão comum para o futuro: “O pensamento político para a juventude é completamente desfasado daquilo que são os apoios dados”. A expressão utilizada pelos responsáveis da Federação Nacional de Associações Juvenis teve eco nos municípios que lançaram mãos a uma rede de Municípios Amigos da Juventude. O modelo proposto pela associação que representa em Portugal 1200 associações, é simples: integrar no novo modelo de governação das cidades e vilas portuguesas os “Youth Goals”, refletindo a visão europeia dos jovens e indo de encontro aos objetivos de desenvolvimento sustentável identificados pela ONU.
2020 como ano atípico, não permitiu o desenvolvimento deste desafio transversal a muitas áreas como a Educação ou Habitação. Contudo, foi na solidariedade da nova geração, para com os mais vulneráveis, que se percebeu a extraordinária força dos mais novos, apostados em dizer presente num momento de grande fragilidade para o país. Um ano depois daquele encontro de jovens e no âmbito da iniciativa “Happy City Conference”, que integra a Rede Europeia de Capitais da Juventude, ficamos todos a conhecer os resultados de um inquérito feito a 7 mil e 700 jovens de sete cidades europeias, incluindo Braga. Ficou demonstrado como a solidariedade mostrou um elo fundamental da ligação dos jovens às necessidades dos mais vulneráveis, afirmando a sua capacidade de intervir na defesa do bem comum. Esta capacidade de intervenção não deixa de ser um paradoxo se olharmos para a forma brutal como os mais novos foram afetados pela Pandemia, pelo que faz sentido, pensar o futuro, criando condições para a Sustentabilidade das políticas que lhe dizem respeito. Um desafio, à resiliência, que não pode esperar pelo momento ideal; isso não existe. É agora que devemos ter a coragem de mudar a agulha e pensarmos que não há cidades amigas ou capitais ou redes que possam valer aos mais novos, sem novos modelos de governação, capazes de criarem as condições à cocriação, de mobilização e proatividade dos mais novos. O futuro da juventude assim o exige, haja coragem para fazer diferente. Para quê? – Desde logo para se inverter a alienação dos jovens pela política, refletida na sua abstenção maciça em eleições, tenham elas a dimensão local, regional ou nacional. Este é um dos sinais mais preocupantes da crise da Democracia, dos valores e princípios europeus que deveriam estar na linha da frente do discurso e apesar de algumas tentativas para inverter este cenário, o que tem sido feito é pouco ou quase nada, porque o discurso não bate com a Ação e quando assim é, torna-se difícil a mobilização da juventude para fazer parte da solução. É verdade que tem sido feito um esforço por alguns autarcas, de Norte a Sul, para inverter esta alienação forçada dos mais novos, mas como em Portugal, a capacidade de monitorização das políticas deixa muito a desejar, o que sobra em jeito de balanço, é um discurso de boas intenções, de algumas políticas bem conseguidas, mas longe de responder a necessidades que, por vezes, não são compreendidas e outras tantas denegadas, por serem ousadas. A afirmação de uma nova geração de autarcas nada tem a ver com a ascensão precoce dos mais novos ao poder. Essa visão é errada e já percebemos porquê através de múltiplas experiências que demonstram a sua fragilidade, por ausência de experiência, ou seja, do conhecimento. Tal não nos deve afastar da necessidade da sua inclusão, de potenciar a sua capacidade para a Ação e muito menos de olhar para ela apenas em anos de eleições. Não podemos permitir que, mais uma vez, os decisores políticos limitem o seu discurso à disponibilidade. É pouco e sabe mais a votos do que a necessidades reais.
Autor: Paulo Sousa