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Um convite ao povo galego

Portugal e a Galiza têm origem comum, com uma história inseparável desde as primeiras formas de cultura humana até ao séc. XII, altura em que ocorreu a Fundação de Portugal, com a Batalha de S. Mamede, em 24 de junho de 1128. Com Afonso VI, (avô de D. Afonso Henriques), em 1072, são reunidos os territórios que haviam sido governados por Fernando Magno, ou seja, Castela, Leão, Astúrias, Galiza e Portugal. Na luta contra os mouros, Afonso VI pede auxílio aos barões franceses, Raimundo e seu primo Henrique da Borgonha, que haviam de casar, respetivamente, com as suas filhas Urraca e Teresa, entregando-lhes, respetivamente, a Galiza e o Condado Portucalense. Em 1128, a Batalha de S. Mamede, em Guimarães, opôs de um lado os partidários de D. Afonso Henriques e do outro os apoiantes de D. Teresa e do galego Fernão Peres de Trava. A partir daqui, embora separados politicamente, Galegos e Portugueses, formando uma unidade histórica galego-portuguesa, tinham ficado com um património cultural comum que se havia de manter ainda por muitos anos. O galego e o português são línguas resultantes da evolução a partir do latim vulgar falado. E assim tiveram vida em comum durante muito tempo, como se verifica dos cancioneiros, pois os trovadores galegos e portugueses trovaram na mesma língua de então: o galaico-português. Se compararmos os textos portugueses e os galegos dessa época, reconhecemos entre ambos completa semelhança, na fonética, na morfologia e na sintaxe. E até no léxico pouco divergem. Portugal, porém, marcando a sua independência política, veio a fixar o seu Idioma em língua literária, enquanto a Galiza, presa a Castela politicamente e deixando de ser escrita (pois, a língua oficial passou a ser o castelhano) estacionou, ficando apenas falado domesticamente. Se até meados ou fins do sec. XIII, podemos falar de um galego-português (galaico-português), devido a uma quase total identidade entre a língua de Portugal e da Galiza, a partir dessa altura quebra-se essa unidade e cada língua segue, separadamente, a sua evolução, com a Galiza a sofrer a influência do espanhol. De todo o modo, essa influência não apagou o parentesco com o português. Os autores consideram o dia 27 de junho de 1214, simbolicamente, o nascimento da nossa língua, por ser a data do documento escrito mais antigo que se conhece em português: o testamento de D. Afonso II. Porem, outros estudiosos dizem que o primeiro documento literário escrito em língua portuguesa é um poema, de 1189, ou seja, a cantiga de amor do trovador Paio Soares de Taveiros, dirigida a Maria Pais Ribeiro (a célebre Ribeirinha), favorita do rei D. Sancho I. O historiador Alexandre Herculano retrata muito bem a identidade comum dos dois povos, numa carta que, em 25 de julho de 1874 enviou, de Vale de Lobos (Santarém), ao seu amigo Benito Vicetto, autor da “História da Galicia”: “A Galiza é um país altamente simpático a Portugal. A Galiza está, a meu ver, em mais íntima conexão de raça, de tradições, de costumes e até de configuração do solo e em produções com Portugal (sobretudo com as nossas províncias do norte) do que com Castela. A Galiza deu-nos população e língua. Entre o Minho e Mondego talvez não haja uma antiga aldeia cujo nome não seja a reprodução do nome de um povo de uma povoação galega, um apelido de família nobre que não traga a sua remota origem dessa região. Cantigas galegas passam ainda hoje por obras de antiquíssimos trovadores portugueses. O português não é senão o dialeto galego, civilizado e aperfeiçoado”. Como se vê, são mais os elementos histórico-culturais que unem Galegos e Portugueses do que aqueles que os separa. O desenvolvimento da atividade cultural e do turismo pode ajudar a uma melhor compreensão dos dois povos irmãos. Ora, como é sabido, em 2028, comemora-se os 900 anos da Batalha de S. Mamede, ato histórico mais adequado para celebrar a Fundação de Portugal pelo que, tendo Portugal e a Galiza uma origem comum, justificará um convite especial ao povo Galego a fim de participar, juntamente com Portugal e os países da lusofonia, nas respetivas celebrações centenárias. A Grã Ordem Afonsina, sediada em Guimarães, juntamente com outras associações locais, já acordaram, em Protocolo, dar o seu contributo para esta causa.
Autor: Narciso Machado
DM

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6 agosto 2020