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Um contributo cristão para repensar a Europa III

A Europa que se redescobre comunidade será seguramente uma fonte de desenvolvimento para si e para todo o mundo. Há que entender "desenvolvimento" como o apontou o beato Paulo VI: um desenvolvimento integral, isto é, que visa o desenvolvimento de cada ser humano e de toda a humanidade. Não se pode separar o económico do humano, o desenvolvimento da sociedade em que se insere. Porque aquilo que realmente conta é o homem, todo o homem, todo o grupo de homens, até abranger a humanidade inteira. (Populorum Progressio, n.º 14). O trabalho, factor essencial para a dignidade e maturidade da pessoa, é um dos contributos mais decisivos para o desenvolvimento humano. Mas hoje, a globalização sem alma, mais atenta ao lucro que ao bem das pessoas, criou bolsas difusas de pobreza, de desocupação, de exploração e de mal-estar social que urge combater denodadamente, retomando as belas iniciativas dos empresários cristãos que compreenderam que o sucesso das suas iniciativas dependia sobretudo da possibilidade de oferecer oportunidades de emprego e condições dignas de ocupação. Um dos maiores desafios de hoje é encontrar emprego condigno para os jovens, sem descurar aquelas actividades outrora valorizadas e hoje secundarizadas, mas absolutamente essenciais, como são aquelas relacionadas com a produção de alimentos. Que seria de nós se não houvesse quem trabalhasse pacientemente nas fábricas de confecções, os que trabalham na construção civil e produzem as casas em que habitamos? Muitas profissões que, hoje, são consideradas de segunda ordem, são, afinal, fundamentais, quer do ponto de vista social, quer sobretudo para a satisfação que os trabalhadores recebem de poderem ser úteis para si e para os outros, através do seu empenho quotidiano. É função dos governos criar condições económicas que favoreçam um sadio empreendedorismo e níveis adequados de emprego. Pertence ainda à política reactivar um círculo virtuoso que, a partir de investimentos a favor da família e da educação, permitam o desenvolvimento harmonioso e pacífico de toda a comunidade civil. Por último, o empenho dos cristãos na Europa deve constituir uma promessa de paz. Foi este o pensamento que iluminou e guiou os signatários do Tratado de Roma que, depois de duas guerras mundiais de violência atroz de povos contra povos, sentiram que tinha chegado o tempo de afirmar o direito à paz. É um direito, mas ainda hoje verificamos como a paz é um bem muito frágil, continuamente ameaçado pelas lógicas particulares e nacionais que fazem correr o risco de esvaziar os sonhos corajosos dos fundadores da Europa. Ser construtores de paz, (Mt 5, 9) não significa apenas evitar tensões internas e trabalhar para acabar com os numerosos conflitos que ensanguentam o mundo. Significa mais: fazer-se promotores de uma cultura da paz. E isto exige amor à verdade, sem a qual não podem existir relações humanas autênticas, e a busca da justiça, sem a qual a prepotência se torna a norma imperante de qualquer comunidade. A paz exige também e sobretudo criatividade. Saber sair das próprias trincheiras, porque com trincheiras não há paz, mas desconfiança e, com esta, a guerra mais ou menos larvar. Hoje é tempo de ter a coragem dos pais fundadores da uma Europa unida e concorde, uma comunidade de povos desejosos de partilhar um destino de desenvolvimento e de paz. Francisco cita uma passagem da Carta a Diogneto: «os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo», para dizer que, neste tempo, estão chamados a voltar a dar alma à Europa e a ajudar a tomar consciência das suas responsabilidades, não para ocupar espaços – pois isto seria proselitismo – mas para animar processos que gerem novos dinamismos na sociedade. Foi o que fez São Bento, patrono da Europa: não se preocupou em ocupar os espaços de um mundo perdido e confuso, mas, apoiado na fé, soube olhar para longe. E de uma pequena gruta de Subíaco deu vida a um movimento contagiante e imparável que redesenhou o rosto da Europa. Ele «que foi um mensageiro de paz, realizador de união, mestre de civilização», nos mostre também a nós, cristãos de hoje, como é possível que da fé brote sempre uma alegre esperança, capaz de mudar o mundo.  
Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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9 dezembro 2017