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“Tu é que sabes, mas, se estivesse no teu lugar, não votava no papagaio troca-tintas”

Estavam os três na paragem do autocarro. Deviam ser amigos. Havia ainda uma senhora, espectadora da conversa. A discussão começou assim: “Tu é que sabes, mas, se estivesse no teu lugar, não votava no papagaio troca-tintas”, disse o de máscara azul. O outro, de máscara bico de pato, ainda cordato, pediu razões. O da máscara azul disse que a política não é defender um clube de futebol. Acrescentou que o papagaio troca-tintas agora não defendia fosse o que fosse, apenas atacava tudo e todos. Encher o ar de ressentimento é o que lhe convém. Como qualquer galo quer apenas lugar no poleiro. “Ele só não é igualzinho aos que mais critica porque é pior do que eles”, comparou ainda o da máscara azul. Tudo começou a azedar quando rematou: “Pensa!” O da máscara bico de pato sentiu-se insultado. Percebeu-se que tinha julgado que a sugestão para pensar não era mais do que uma admoestação por não pensar. Abundantes palavrões depois, o da máscara bico de pato foi-se embora. Ao que ficou, que na máscara tinha inscrito o nome de um estabelecimento de comércio local e que tinha estado sempre calado, o da máscara azul disse, falando alto para que as duas testemunhas ouvissem: “Tu que és mais certo do raciocínio, vê o seguinte: lá no restaurante do teu irmão de certeza que não ias querer que cozinhassem mal. E ficavas furioso se roubassem alguma coisa. Tudo certo. Mas diz-me lá: se ele tiver de escolher um gajo para a cozinha, achas que devia ir buscar um que servisse comida estragada?” O outro tendia mais a concordar do que a discordar. O da máscara azul quis explicar-se melhor. Passou da cozinha para a administração do condomínio. “Imagina um prédio com oito pisos. Achas que se pode escolher um papagaio troca-tintas para administrar o condomínio?” O outro encolheu os ombros e o da máscara azul prosseguiu: “Perguntei-te por causa da história do meu primo. Outro dia, teve de escolher um tipo para tomar conta do prédio. Um dos candidatos começou por dizer, para garantir os votos dos que vivem nos pisos mais baixos, que ia pôr na linha o bêbedo do terceiro esquerdo. O meu primo perguntou-lhe o que ia fazer em relação aos do último andar que são muito discretos e educados, mas já se apropriaram de partes comuns do terraço, da garagem e do jardim. ‘Andamos para resolver isso há anos’, explicou-lhe o meu primo – e ele, nada. E também não disse nada dos do sexto esquerdo que, todos os anos, fazem obras que infernizam o prédio. E havia mais uma ou outra situação, mas só empaleava”. Para o da máscara azul, havia uma justificação para “o programa” do candidato a administrador do condomínio: “O tipo da mercearia tinha-lhe feito a cabeça contra o borrachão. Dizia que ele era – imagina – a causa dos males do prédio em geral e do mundo em particular. Ele e outro que o candidato também ia pôr na linha. O merceeiro tinha-lhe dito que morava no prédio do meu primo, mas ninguém conseguiu descobrir sobre quem é que ele estava a falar”. A prédica tinha certa razão de ser. O da máscara azul apresentou-a: “Leste o Jornal de Notícias? Não leste? Devias ter lido. Tinhas ficado a saber de um escândalo, uma cena de suspeitas de fuga ao fisco e de branqueamento de capitais. O jornal diz que os negócios do futebol que estão na mira do fisco já somam 500 milhões de euros. Repito: 500 milhões [751879 ordenados mínimos]. Ouviste o papagaio troca-tintas dizer alguma coisa sobre isto? E já lhe perguntaram o que é que ele tinha a dizer sobre a dívida que o tipo que preside ao clube dele tem à banca e ele o que é que disse? Zero. Não me obrigues a bater no ceguinho”. O da máscara azul regressou à incitação que tinha provocado a zanga do da máscara bico de pato; ao: “Pensa!”. “Ele pensa, mas a escola foi fraca: foram muitos anos, muitas noites a acompanhar as discussões sobre futebol. Não foi por serem um modelo de civismo que algumas televisões decidiram acabar com elas. O papagaio troca-tintas também aprendeu: foram horas e horas a acirrar as claques, a doutriná-las sobre golos, a fazê-las acreditar que existiram os golos que os beneficiam (mesmo que não tenham existido) e que não existiram os que os prejudicam (mesmo que tenham existido). Nessa fanfarronice, para garantir o salário, é preciso estar sempre acelerado, a inventar inimigos, desvairado com maquinações”. Antes de o autocarro chegar, o da máscara azul ainda disse ao outro: “Se estivesse no lugar dele, não votava no papagaio troca-tintas, mas ele é que sabe. Ou, se calhar, não sabe. É triste ter quase 48 anos e não saber escolher o menos mau”.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
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17 janeiro 2021