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Trabalho que mata

Li, há tempos, na imprensa diária:

Homem de 50 anos morreu ontem em Ponte da Barca, no distrito de Viana do Castelo, na sequência de um acidente que envolveu o trator agrícola que conduzia, disse à Lusa fonte da GNR.

Um trabalhador da construção civil de 46 anos caiu de um andaime de uma altura de 20 metros, quando procedia a trabalhos de reparação num prédio de cuja queda resultou a sua morte no próprio local do acidente.

Trabalhador agrícola de 33 anos morreu esmagado pela máquina de ceifar que conduzia a caminho de ceifa num terreno acidentado. A vítima teve de ser desencarcerada e o óbito foi declarado no local do acidente.

Frequentemente os acidentes de trabalho que podiam ser evitados se as condições de segurança fossem cumpridas acontecem; e esta atroz realidade prova que o facilitismo e a negligência, sobrepondo-se à falta de fiscalização, respondem pela maioria destas calamidades.

E para que conste, nos primeiros dez meses de 2019, só em acidentes de trabalho com tratores, perderam a vida 31 pessoas; e, se alargássemos o âmbito destes acidentes, verificávamos que eles acontecem com maior evidência na construção civil, nos transportes, na indústria extrativa (minas), na agricultura e nas pescas.

Então, perante o número de mortos, deficientes e ausentes ao trabalho, segundo dados estatísticos, somos, na União Europeia (EU), o nosso país aparece muito mal na fotografia; e, sobretudo, pelo demasiado número de mortos que acontecem e pela ausência de legislação e aplicação de medidas que o impeçam.

Comparando com os nossos 27 parceiros da EU, segundo dados do Eurostat no que ao número de acidente de trabalho diz respeito, apenas a Roménia, a Bulgária e a Áustria se encontram à nossa frente; e, para além do número de mortos, estamos em segundo lugar no que concerne a lesões, entorses, contusões, queimaduras, fraturas, etc. etc. apenas suplantados pela França.

Sabido, mas não plenamente e reconhecido, que o trabalho causa problemas do foro psicológico dos quais a depressão se afirma como mais evidente, a situação tende a agravar-se; e, assim sendo, mais vulnerável se torna o trabalhador no que às condições de segurança diz respeito muitas vezes negligenciando-as ou, pura e simplesmente, ignorando-as.

Por exemplo, no Japão o trabalhar até à exaustão é considerado um hábito cultural antigo que o trabalhador acata seriamente; e, depois, quando devia ser apontado como um problema de Saúde Pública, os governos do país ignoram as medidas de apoio e proteção ao trabalho e aos trabalhadores.

Perante estas realidades, urgente se toma que os nossos governantes criem legislação apertada e obriguem ao seu cumprimento, bem como medidas de sensibilização, fiscalização e esclarecimento, tais como:

  • passar a mensagem de que o risco de acidente existe em qualquer atividade e não escolhe contextos, nem pessoas;

  • difundir com insistência a cultura de segurança que permita a preparação e o conhecimento de princípios e regras a adotar;

  • investir nos meios e métodos de segurança; – reforçar a inspeção aos locais de trabalho, pois segundo a Comité de Peritos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) deverá existir um inspetor por cada 10 mil trabalhadores;

  • apostar na formação no terreno dada a sua maior pertinência, autenticidade e realismo;

  • sensibilizar patrões, trabalhadores e sociedade em geral para as doença do foro psicológico como estresse, assédio, excesso de horas de trabalho e pressão sobre o cumprimento apertado de horários, objetivos e metas de produção;

  • acreditar que saúde e segurança são vitais no trabalho como fatores de lucro e desenvolvimento e não de atraso e prejuízo para as empresas.

Em conclusão: se os governos se convencerem de que o investimento nestas medidas de esclarecimento, sensibilização e fiscalização é relevante, da sua prática sempre resulta grande benefício e nunca prejuízo para o país; e, assim, poderemos sair da retaguarda do pelotão e de ser o carro-vassoura da União Europeia em acidentes de trabalho.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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9 fevereiro 2022