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Teremos sempre Paris…

Por estes dias, o país ficou suspenso à monocórdica leitura da decisão instrutória de um dos mais mediáticos processos da história da justiça portuguesa. Pela primeira vez, um ex-primeiro-ministro vai a julgamento por eventuais crimes cometidos em pleno exercício das suas funções. Meia dúzia de dias depois, mais de dois milhões de telespectadores assistiram à entrevista (TVI) em que o arguido com nome de filósofo clamava a sua inocência, dizendo-se perseguido pela justiça e meios de comunicação social e abandonado por ex-correligionários. À mesma hora, outros dois milhões seguiam o último episódio da reportagem “A Grande Ilusão” (SIC) sobre os obscuros mecanismos de financiamento da extrema-direita. Retratos de uma jornada cada vez mais banal da política portuguesa.

No dia seguinte, sabia-se que o Ministério Público pediu o levantamento da imunidade parlamentar de uma dezena de deputados para serem ouvidos como arguidos por crime de peculato, por terem alegadamente usado falsas moradas com o intuito de receberem subsídios de deslocação. Dois dias antes, uma Presidente da Câmara fora detida pela Polícia Judiciária por suspeitas do crime de corrupção num negócio imobiliário. Não admira que os índices de confiança nas instituições estejam pelas horas da amargura. De acordo com o estudo "Instituições e qualidade da democracia: cultura política na Europa do Sul" (Fernandes, 2109), só 28% dos Portugueses confiam no Parlamento, 18% no Governo e 11% nos Partidos. A Justiça ainda apresenta(va) uma apreciação um pouco mais positiva (41%), mas não é certo que os últimos acontecimentos tenham confortado esse sentimento.

E depois há aqueles de quem quase nunca se fala. Os que ficam esquecidos nas masmorras da indiferença e nas margens das desigualdades sociais. Vivemos obnubilados por estatísticas e classificações sem questionar a respetiva pertinência, nem os critérios que presidem à sua elaboração. Somos céleres em espiar vidas privadas de gente mais ou menos famosa que por vezes se presta ao papel de figurante neste circo panótico. Incensamos histórias de empreendedorismo de sucesso, mas ignoramos aqueles que vivem no fio da navalha ou cujos projetos fracassaram por razões socioestruturais. Reconhecer o mérito de uns não deveria ser incompatível com a defesa de uma sociedade mais justa e solidária. Um quinto da população, muitos dos quais com um emprego estável, vive hoje abaixo do limiar da pobreza.

A 30 de Março, como faz ano após ano, o diário católico La Croix publicou um suplemento de quatro páginas com os dados relativos às 535 pessoas sem-abrigo que faleceram nas ruas de França em 2020. Com uma média de 49 anos, a lista é constituída por 491 homens e 44 mulheres entre os 5 e os 80 anos, muitos deles sem qualquer identificação. Seja qual for a idade, nacionalidade ou percurso, são destinos trágicos. Percorri com atenção o fúnebre rol. Entre os nomes, figuram o Narciso (38 anos), de Vila Nova de Gaia, falecido a 2 de Fevereiro, em Marquixanes, nos Pirenéus, assim como o Luís Filipe (56 anos), natural de Alhos Vedros, a 23 de março; o Belmiro (56 anos) de Valpaços, a 9 de abril; o Travassos (66 anos), de Tomar, a 31 de julho; o Salvador (82 anos), de Ponte da Barca, a 8 de agosto e o António (70 anos), de naturalidade desconhecida, a 17 de outubro, todos eles falecidos nas ruas de Paris.

Dias antes, através da DGACCP, a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas decidira reduzir de 40% a já de si escassa verba anualmente atribuída à Santa Casa de Misericórdia de Paris para o apoio social que a rede consular há muito deixou de prestar de forma satisfatória. Em tempos de pandemia, a pequena estrutura da Misericórdia de Paris procura ajudar – tanto quanto lhe permitem os seus parcos recursos – compatriotas sem abrigo, detidos, famílias monoparentais, desempregados e idosos em situação de isolamento que o país de origem continua a ignorar. Mas todos nós conhecemos um certo apartamento da capital francesa. Apetece citar a célebre réplica de Casablanca (1942): “teremos sempre Paris”.


Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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17 abril 2021