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Terá o bem de ser clandestino?

«Se falei bem – questiona Jesus –, porque me bates» (Jo 18, 23)?

Está visto que o bem sempre incomodou, vá lá saber-se porquê. Daí que muitos dos que o professam e cultivam, quando não são molestados, sejam removidos para uma quase clandestinidade, ostracizados nas incontáveis «prateleiras» da vida.

Há mesmo quem não hesite em apodar quem pratica o bem de padecer de «mau feitio». Como se não fossem tantos imputados de «mau feitio» os que mais primam pela rectidão, pela competência, e pela resolução dos problemas.

No fundo, a inculpação de «mau feitio» não passa da recusa de reconhecer a integridade, o mérito e a bondade.

É certo que o bem – já o reconheciam os antigos – é difusivo. Mas o mal –assim atesta a experiência – parece ser (muito) mais difundido.

Até se convencionou que «a boa notícia não é notícia». Isto é, não tem audiência. Dá a impressão de que só a maldade «vende».

É frequente notar que, quando se faz bem a alguém, se lhe peça que não diga nada. Há sempre o risco de ser mal interpretado.

Até o facto de duas – ou mais – pessoas se darem bem importuna muitos. Há quem fique menos inquieto quando as pessoas se dão mal ou simplesmente não se dão.

Este distúrbio, que externalizamos cada vez mais, faz com que a falsidade, a insinuação, a calúnia e a violência despertem uma crescente – embora mórbida – atenção.

O que vemos, ouvimos e lemos é sobretudo o negativo, o trágico e o suspeitoso.

Como se não bastasse, até sobre o bem intentamos convocar uma qualquer segunda intenção, um putativo interesse.

Damos por adquirido que a bondade se eclipsou de vez. E que se de alguém sobressai o bem é porque a sua maldade está encoberta, oculta, velada.

Não falta, pois, quem atormente o quotidiano das pessoas bondosas, procurando macular-lhes a honra e ferir-lhes a (impoluta) dignidade.

O Padre Costa Freitas reconhecia que «algumas pessoas nunca perdoam o bem que lhes fazemos».

Aliás, o Evangelho faz-se eco desta mesma preocupação: «Serão maus os teus olhos porque eu sou bom» (Mt 20, 15)?

Jesus, que passou a vida a fazer o bem (cf. Act 10, 38), foi maltratado, crucificado e morto.

Mas nem o cúmulo de vilanias que sofreu impediu que – ainda hoje – o bem que semeou seja conhecido e proclamado.

A «boa notícia» de Jesus continua a mobilizar e a transformar vidas inteiras.

Ela não figura nas parangonas da imprensa e pode não alimentar o fluxo torrencial das redes sociais. Mas continua a habitar em muitos corações.

Por isso, não tenhamos pudor em fazer o bem. Levemo-lo a todos e não o recusemos da parte de ninguém!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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8 fevereiro 2022