Portugal e o mundo encontram-se numa grande encruzilhada o que torna o amanhã imprevisível.
O nosso país está numa aparente acalmia, mas abundam sinais que fazem temer grande instabilidade e um crescimento galopante de mal-estar social.
A inflação e o consequente aumento do preço de bens essenciais, a par da subida acentuada dos juros do crédito à habitação fazem disparar os alarmes. A limitação na atualização das rendas leva a que muitos senhorios ponderem não renovar os contratos de arrendamento, o que faz com que muitas famílias temam ser despejadas.
O incremento do número dos sem-abrigo é outro dado inquietante e não pode nem deve deixar ninguém indiferente.
Há gente a recorrer a feiras e mercados na ânsia de vender objetos pessoais na tentativa de fazer algum dinheiro que lhe permita acudir a necessidades imediatas.
Enfim! O Governo para tentar serenar a efervescência latente na sociedade portuguesa concedeu subsídios e outras ajudas para combater os malefícios da inflação. No entanto, estes benefícios não passam de pequenos baldes de água lançados nas grandes labaredas que a presente situação já desencadeou.
Em paralelo, o mundo vive tempos conturbados e abundam ameaças que podem alterar profundamente o modo de vida que julgávamos irreversível.
A guerra na Ucrânia é a face mais visível dessa intimidação. O grau de destruição imposto pelos bombardeamentos incessantes da Rússia levando à eliminação de infraestruturas básicas como a distribuição de água e eletricidade, causam ao martirizado povo ucraniano morte e sofrimento que pensávamos não voltar a testemunhar nos dias de hoje. A proximidade do inverno e as baixas temperaturas são mais um motivo para nos solidarizarmos com aquela gente que, patrioticamente, vai resistindo a todos os flagelos.
Se a situação na Ucrânia não pode deixar ninguém indiferente, que dizer do clima de crispação existente no Kosovo onde os sérvios acusam as autoridades kosovares de violarem os acordos com a Sérvia e com a União Europeia? É mais um foco de tensão a preocupar o mundo, mas principalmente o Velho Continente.
Na Síria e no Afeganistão persiste a barbárie e no Irão a população dá mostras de querer lutar pela liberdade e sacudir o jugo do poder autocrático islâmico. Contudo, a repressão violenta tem sido a resposta às grandes manifestações de rua e, apesar de todas as sanções, o país continua a desafiar a comunidade internacional persistindo no enriquecimento de urânio que lhe permita aceder à bomba atómica.
Estas realidades só por si são razão para apreensão e incerteza. Porém, quer as eleições intercalares desta terça-feira nos Estados Unidos da América, quer os próximos desenvolvimentos no Brasil, decorrentes da derrota de Jair Bolsonaro e da vitória de Lula da Silva, não são menos importantes em matéria de temor e de inquietação.
A possível derrota dos democratas na eleição americana retiraria ao presidente Joe Biden condições de prosseguir com o seu programa mas, bem pior do que isso, levariam Donald Trump a ameaçar a democracia e a catapultar-se para voltar a ser candidato e a fazer-se reeleger dentro de dois anos. É um verdadeiro pesadelo que pode bem acontecer e uma autêntica intimação aos democratas defensores do estado de direito. Por isso, oxalá não se venha a confirmar.
No que ao nosso país irmão diz respeito, apesar da generalidade dos países democráticos respirarem de alívio com a derrota nas urnas do presidente cessante, Jair Bolsonaro, a situação permanece instável e a vida dos brasileiros não será fácil nos tempos que se avizinham.
Lula da Silva terá de lidar com um país profundamente dividido em dois grandes blocos, com a pobreza de milhões de seus concidadãos para resolver e com o problema da fome que é um flagelo que não pode esperar. Além disto, terá de governar com o Senado dominado por membros afetos ao presidente derrotado e não se livrará tão cedo do anátema de corrupto.
Não podemos esconder que vivemos tempos sombrios.
Deus queira que todas as nuvens carregadas que pairam no horizonte possam rapidamente desaparecer e deem lugar a um céu azul de tranquilidade e de paz.
Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira