“A infinita variedade dos ritos e das crenças agrárias supõe o reconhecimento de uma força manifestada na colheita” (Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões, ed. ASA, Porto 2004, p. 418). Profundamente ligadas a esses ritos e crenças, todas as religiões e culturas valorizam as colheitas e o seu significado mais profundo, na tríplice dimensão de momento de festa, gratidão e partilha.
Sendo o Outono, por excelência, o tempo em que se colhe, não fora a situação pandémica em que nos encontramos e estaríamos a celebrar as habituais Festas das Colheitas. Parece-nos, por isso, oportuno refletir sobre o sentido mais profundo, bem como sobre o caráter festivo e sagrado deste tempo para colher.
Nos ritmos da natureza, há um tempo para tudo e concretamente para semear/plantar e colher. Talvez seja a isso que se refere Qohélet, quando afirma que “para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu: (...) tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou” (Ecl 3, 1.2).
Com raízes no Antigo Testamento, a Festa das Colheitas (ou primícias) é uma das mais antigas e (con)sagradas do Povo de Deus, como se pode constatar em Lv 23, 9-11 (“Quando chegares à terra que vos concedo e procederdes à ceifa, levareis ao sacerdote o primeiro molho da vossa colheita e ele fará o ritual de apresentação diante do Senhor, para que vos seja aceite”) e em Dt 26, 1-2 (“Quando entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar em herança e dela tomares posse e ali habitares, tomarás as primícias de todos os frutos que colheres da terra que te há-de dar o Senhor, teu Deus; pô-los-ás num cesto e apresentá-los-ás no lugar que o Senhor, teu Deus, tiver escolhido para aí habitar o seu nome”). Subjacente a estes procedimentos estava a convicção de que a terra pertencia a Deus e poder cultivá-la, retirando dela o alimento, era um dom do próprio Deus para o povo que, agradecido, lhe oferecia as primícias.
Por de trás de cada colheita há uma longa história, dado que, entre o momento de se lançar a semente (ou de plantar) e o de colher, decorre um longo tempo de expectativa e maturação. Se não há colheitas sem sementeira ou plantação, também não se colhe se não se cuida da terra e das plantas.
Há, de facto, um tempo para tudo: para semear/plantar, para cuidar e para colher. E tudo isso exige que se dê tempo ao tempo. É por isso que, em contraste com os ritmos apressados da sociedade industrial e técnica, as sociedades agrárias viviam (vivem) em ritmos mais lentos. Quem lida com a natureza vive ao seu ritmo e respeita os seus ritmos.
Depois de tanto investimento e espera, o tempo das colheitas é uma oportunidade para fazer festa. E como ela é importante! É uma brecha no quotidiano, o respiro da panela de pressão em que, no meio de tantos trabalhos, canseiras e responsabilidades, se transforma a vida.
As festas das colheitas constituem momentos de gratidão à natureza e ao seu Criador, por nos dar o melhor de si. Sendo parte da natureza, dela nos alimentamos para continuar a ser aquilo que somos. Somos aquilo que comemos, mas muito mais do que isso, quando conjugamos o verbo “agradecer”.
Por último, as colheitas reclamam a partilha. Era por isso que, na ceifa, não havia a preocupação por recolher tudo. Se Mircea Eliade constata que “o costume de não ceifar as últimas espigas de uma seara está muito espalhado” (o. c., p. 418) e a preocupação é não esgotar a essência, a “força” vivificante da colheita, na Sagrada Escritura, o objetivo é possibilitar aos pobres e estrangeiros que se alimentem, mesmo sem terem semeado (cfr. Lv 23, 2; Dt 24, 19; Rt 2, 2-3). Depois de tantos trabalhos e incertezas, como é belo o tempo para colher!
*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
Autor: P. João Alberto Correia