A estória que vou relatar passou-se comigo e mostra que muitas vezes complicamos aquilo que é fácil, à luz de ideias de progresso, de modernidade ou de um qualquer chique pretensioso. É o que se vai passando por diversos sítios do nosso país.
Avenida da Liberdade em Lisboa, meio da tarde, início de Outono. Um café que aí se encontra tinha o nome de uma marca portuguesa sobejamente conhecida de cafés.
Era um espaço acolhedor, moderno, asseado e, como muitos dizem hoje, “clean”; se estava ou não na moda, podemos dizer que era frequentado por bastantes jovens e menos jovens numa convivência agradável.
Pois bem, no Verão passado fechou para remodelação; poderia perguntar-se: remodelar o quê se tínhamos um espaço fresco, capaz, actual? Questionei-me sem saber o que aí viria. Abriu com nova roupagem, nova nomenclatura e, aparentemente, numa aposta arrojada na diversificação da parte do café, mas também numa aposta de misto café/cervejaria o que, desde logo, retira ao conceito alguma da pretensão – como se sugere à entrada – de colocar aquele como rei! Mas são opções!
Somos acolhidos por um funcionário de fato, qual concierge de hotel. E o suposto glamour e atractividade do espaço ficou por aqui. O senhor teve dificuldades em explicar coisas comezinhas. Mas deixando de lá a experiência pessoal, passo a contar o que me ficou na retina e se fixou, perenemente, na minha memória.
Um casal próximo dos oitenta chegou, sentou-se. Uma gentil funcionária ia anotar o pedido quando o senhor fez um “inusitado”: Quero um café!
Inusitado porque a prestável funcionária disse que tinha de escolher o tipo de café. Ora o senhor no alto da sua provecta idade não queria mais do que, queria, apenas um café, café mesmo. “Mas qual café? Temos o chemex, o V60, o aeropress, o de balão, o americano”, apresentava aquela. E ia explicando no que tão requintados cafés consistiam, perante a inexpressividade do cliente que desejava, tã-só, um café. Nem cheio, nem curto, nem com chávena a escaldar. Somente um simples café, talvez também saboroso. “Ah! Quer um expresso?”; sim, devia ser isso. Mas continuou: “olhe que temos o 100% arábica, o de origem orgânica…”. “Minha senhora, só quero um café normal!”. Pois, a funcionária certamente desgostosa por tão pouca vontade de um especialíssimo preparado de grãos da Colômbia, de El Salvador ou Brasil, um qualquer blend angelical que fizesse os sentidos dispararem, lá foi tentar encontrar um simples café. Pela forma, apostava que se questionada por um expert, o decorado à pressão se desvanecia por aí…
E o senhor virou-se para a senhora que acompanhava, provavelmente sua esposa: “para a próxima tenho de saber o nome do café!”
Não temos dúvidas que haverá cafés para todos os gostos, de sabores mais ou menos exóticos, preparados fenomenais. Mas um café é um café e nós temos café – o tal simples – dos melhores que no mundo se faz. A simplicidade por vezes é uma arte e nós quantas vezes conseguimos, à guisa de um qualquer conceito de bem ou pseudo-cosmopolita, esquecer que o belo está, por mais das vezes, no simples, na sua leveza. Veja-se a natureza cheia de exemplos mil.
Talvez numa capital mais interessada num turismo de massa padronizado, tenham êxito estes salamaleques comerciais, despidos das tradições e dos nossos mais profundos saberes (e sabores já agora) que se encontrarão em qualquer outra parte do mundo. Importam-se conceitos vistos num qualquer lugar que – por vezes – se confundem com tantos outros, que nada se diferenciam do que é nosso, que são snobs e olvidam os cheiros, aromas, sentimentos genuínos do Portugal. Assim se vai apagando a alma e a essência de uma cidade. Um dia destes, aquela só se fica pela pedra das calçadas ou seus edifícios. Um dia deixaremos de cantar cheira bem, cheira a Lisboa. Um exemplo a tentar não seguir aqui por Braga nos seus vários, belos e históricos cafés!
Autor: António Lima Martins
Só quero um café!
DM
25 fevereiro 2022