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“Si vis pacem, para bellum”

Nunca este provérbio latino teve tanta actualidade (figura na entrada do Centro Cultural do Exército de Madrid), da autoria provável do romano Flávio Vegécio (século IV). Esta máxima, “Se queres a paz, prepara a guerra”, exprime o que, nas últimas décadas, tem falhado no Ocidente e à NATO. Ao invés, Putin, nos quase 23 anos como novo “czar da Rússia”, não querendo a paz, mais não fez que preparar-se para a guerra, de que a brutal e devastadora invasão da Ucrânia é o acme.

1. Após uma longa história em que a Ucrânia foi Nação antes da Rússia (no século VII, Kiev, a actual capital ucraniana, foi centro do primeiro Estado eslavo), a sua história foi uma luta contínua pela independência e liberdade: no século XVII, o czarismo da Rússia Imperial apodera-se de regiões da Ucrânia, após a independência em 1917 é anexada em 1922 pela URSS, de novo independente em 1991 é, em 2014 e 2022, vítima de brutal invasão e da tomada de regiões, por parte da Rússia. A obsessão de Putin foi expressa quando disse que "o colapso da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX". Essa obsessão do ex-espião de KGB segue-se a um largo e longo espectro de eventos abomináveis, desde a ordem dada por Lenine (Fevereiro 1919) ao exército russo para invadir a Polónia (guerra que duraria dois anos), à ocupação por Estaline (Setembro 1939), num acordo secreto com Hitler, da parte oriental da Polónia, tendo ainda atacado a Finlândia (Novembro 1939) e tomado uma província finlandesa, anexando depois (Junho de 1940) os três Estados Bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). Já Khruschev invadiu a Hungria (Novembro 1956) para derrubar o governo que ousara eleições livres e a saída do Pacto de Varsóvia, tal como Brejnev (Março 1968) enviou tropas para pôr termo ao tentame de democratização da Checoslováquia, como enviou ainda tropas para o Afeganistão (Dezembro de 1979) para manter aí o partido comunista. O expansionismo militar russo parece não ter limites, e só a força militar o pode deter; ora, Vladimir Putin olha-se no seu espelho solipsista como herdeiro quer do Império Russo dos czares quer da União Soviética dos déspotas comunistas.

2. Putin age porque sabe que a NATO não age, ora relutante ao uso da força, ora paralisada na esteira da sua vocação defensiva; como disse Ramalho Eanes, talvez algo mais pudesse ter sido feito. Note-se que o próprio Kissinger, nome altissonante da diplomacia e politologia estadunidense (nunca se cansou de lutar contra a URSS), lamentou há uma década não se ter associado a Rússia a um pacto de segurança na Europa: o que seria de Europa! Obama, mais que à Europa e Rússia, deslocou a atenção para a China e a zona do Pacífico. Já Trump, num mandato presidencial só, minou tanto os alicerces da NATO que a deixou quase derruída! Joe Biden, ao alegar várias vezes que não enviaria tropas para a Ucrânia no caso de invasão russa, foi indirectamente complacente! Com razão, Hubert Védrine, antigo ministro dos negócios estrangeiros, disse em entrevista: "o Putin de 2022 é em grande parte o resultado, como um monstro de Frankenstein, das andanças, casualidades e erros do Ocidente por 30 anos". Os ocidentais não estão isentos de responsabilidade pelo expansionismo russo.

3. Putin sabe bem que a NATO não abriu as portas à Ucrânia em 2008 (o inapto Sarkozy e a titubeante Merkel trataram de vetar a admissão), e sabe também que nada faz prever o seu ingresso próximo. Ele sabe ainda que os escassos contingentes da NATO na Europa nada eram comparados ao arsenal bélico do outro lado da fronteira. Todavia, o que Putin sabe muto bem é que a Ucrânia quer a independência e a democracia. Como escrevemos no artigo “Calem-se as armas!”, são esses valores que Putin quer longe da Rússia. A prosperidade da União Europeia, que ele tenta minar de vários modos, é um desafio e uma acusação à negligência económica do regime: ele não quer o florescimento socioeconómico de antigos países do Pacto de Varsóvia à vista dos russos, oprimidos e coagidos (proibidos até de dizer a palavra ‘guerra’, as mães não podendo sequer dizer que "seus filhos morreram na guerra"). A tensão entre Ocidente e Oriente nunca foi tanto o conflito entre capitalismo e comunismo, sempre foi um conflito irredutível entre democracias e ditaduras. Putin só pára se for parado: a Ucrânia é hoje a arena do embate; se soçobrar, ele estará mais próximo!

Sobre a defesa do Ocidente, o filósofo Raymond Aron, no final da sua vida, realçou a sua preocupação de sempre: "A moral do cidadão é pôr acima de tudo a sobrevivência, a segurança da comunidade. Mas se a moral dos ocidentais é agora a moral do prazer, da felicidade dos indivíduos e não a virtude do cidadão, então a sobrevivência está em questão. Se não resta mais nada do dever do cidadão, se os europeus não têm mais o sentimento de que precisam de lutar para conservar esses esteios de prazer e de felicidade, então, de facto, somos simultaneamente brilhantes e decadentes".

O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”


Autor: Acílio Estanqueiro Rocha
DM

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17 março 2022