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Serenamente

Agora, quando me olho num espelho é cada vez mais a tua imagem que me aparece refletida e não a que eu julgava ter. Quem me explica como é possível que, passados estes anos todos me vá metamorfoseando em ti?

Porém, desapareceste vai quase para seis anos. E passei a procurar-te e a julgar encontrar-te em muitos idosos que vou vislumbrando aqui e ali e que, em certas expressões, certos sorrisos, certos andares, certas posições do corpo, me fazem recordar-te. E o tempo passa tão depressa que o teu desaparecimento foi ontem, quando me ligaram para dizer que tinhas sido atropelado numa passadeira, a fazer o teu passeio matinal, duas coisas aparentemente pacíficas e aconselháveis (dar um passeio matinal a pé e atravessar uma estrada numa passadeira destinada a peões), mas que se revelaram fatais para ti.

Tu que passaste por tanto. Dificuldades, doenças, acidentes e guerras e a tudo sobreviveste. Menos a um passeio matinal e a um condutor demasiado apressado que te apanhou naquela passadeira.

Depois veio a dor do desaparecimento e os remorsos do que ficou para dizer e não foi dito. De termos estado juntos no dia anterior, na pouca atenção que nesse dia te dispensei porque estava a preparar um trabalho para apresentar no dia seguinte e que, por ironia e lição de vida, já não apresentei. E assim ficou também provada a relatividade da importância das coisas e as impossibilidades futuras em corrigir erros do passado.

Agora, dou por mim a procurar-te em muitas figuras humanas que vou vendo aqui e ali, que me sorriem e que as convenções sociais decidiram chamar de idosos.

Acabamos por nunca ter a tal conversa que pai e filho devem ter sempre. Acabaste por não ver os teus netos que adoravas e que te enchiam de orgulho a concluir os seus cursos e a iniciarem a sua vida profissional.

Porém, neste mundo voraz e aparentemente muitas vezes sem sentido em que vivemos, sempre a correr em busca do que não existe, vamos deixando para trás tudo o que é verdadeiramente importante. Curiosamente, neste mundo em que os cabelos brancos vão pintando de neve os passeios das nossas cidades, fico com a sensação de que “este país não é para velhos”, o título curioso de um filme dos irmãos Coen de 2007 que consagrou o ator espanhol Javier Angel Encinas. Violento, quase tão violento como a sociedade em que vivemos e que ajudamos a construir.

Na verdade, neste mundo alucinante e alucinado, em que andamos todos a correr de um lado para o outro, quais baratas tontas, para finalmente parar, quando subitamente um carro não para numa passadeira.


Autor: Fernando Viana
DM

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19 fevereiro 2022