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“Santos” e “pecadores”

1. Fazem-se campanhas de sensibilização para a mudança dos hábitos alimentares, em conferências e palestras sobre os malefícios de certos produtos, alertando para o cancro do intestino e, até aí, tudo bem e esclarecido. Só que depois vemos, em nome do êxito no negócio e da promoção das suas terras, toda a população em redor das feiras do fumeiro, dos enchidos e do queijo onde são vendidos, para consumo, toneladas deles. Isto, enquanto surgem alertas lançados por peritos da área da saúde sobre o aumento do síndrome cancerígeno do cólon do reto, sobretudo no Alentejo em que, tal, é considerado preocupante. E porquê? Porque é nessa região do país onde se usa e abusa, pecaminosamente, desses fumados.

2. Regularmente somos confrontados com o aumento da diabetes no país onde, segundo dados recentes, existem mais de 1 milhão de pessoas afetadas com a doença, ainda que quase metade não saiba que a contraiu. Sendo detetados 168 novos casos diários, com todos os riscos dos problemas cardiovasculares, amputações, cegueira provocada pela retinopatia diabética, etc..

Doença crónica que vem custando ao “SNS” dois milhões de euros por ano e que deixa um rasto de 12 mortos por dia, matando mais que a “SIDA” e o cancro da mama. E o que vemos? A maior das fraquezas, humanas, na resistência ao consumo de produtos à base de açúcar. A julgarmos pela quantidade de gente refestelada nas pastelarias – que enxameiam as nas nossas cidades, vilas e aldeias – atiradas à doçaria. É a moda das provas dos pastelinhos disto e daquilo. Enquanto, de igual modo, se expandem os negócios da ótica para garantirem a visão a quem a vai perdendo, às vezes, precocemente.

3. É, quase sempre, em ato de contrição que a população vai anuindo à preocupação que é transmitida pelas entidades que estudam e se dedicam à área das estatísticas, as quais vão alertando para os perigos que poderão advir da crescente obesidade no país. Então no que toca às nossas crianças é sabido que tem havido um exponencial aumento desse desarranjo alimentar. Só que a “santidade” em que muitos pais se procuram embrulhar, justificando-se de que a culpa é do “stress” e que até a própria água engorda, é desculpa para continuarem a cometer o pecado da gula. Optando por encaminharem os filhos para o “fast-food”. Um alto preço que tem sido pago, anualmente, por todas as faixas etárias, com 6500 mortes por enfarte e 4500 por doenças do sistema cardiovascular.      

4. Nesta sociedade consumista, em que vivemos, tudo está formatado de molde a que as pessoas fiquem dependentes de consumirem as coisas mais estapafúrdias. Para isso, são lançadas fortes campanhas de publicidade à volta desses produtos, tornando-os praticamente irresistíveis. Sobretudo, quando se tornam elementos de afirmação social como sejam, para além de outros, o álcool e o tabaco, apesar deste último anunciar que mata. Dois flagelos que não atingem apenas os adultos, mas também os menores de idade cujos progenitores, quando senhores desses exemplos, deixam de poder exercer a autoridade moral sobre os seus filhos.

5. Finalmente peca-se, quando não se dorme como um anjo. E apesar de ser do domínio geral que o sono é indissociável das necessidades intrínsecas ao nosso corpo e, portanto, retemperador, continuam-se a passar noites em claro.

“Santos”? Somos quando nos confrontamos com a realidade dos números. Mas, certamente, “pecadores” enquanto não fazemos parte deles.

 

Autor: Narciso Mendes
DM

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3 abril 2017