A 13 de setembro de 335, o Imperador Constantino e Helena, sua mãe, consagravam, em Jerusalém, a grande Basílica da Anástasis (“ressurreição”, em grego), depois chamada do Santo Sepulcro, pelo facto de ter sido erguida sobre o lugar da sepultura de Jesus. No dia seguinte, 14 de setembro, começou a veneração da Cruz, facto que deu origem à Solenidade da Exaltação da Santa Cruz. A este acontecimento, acresce a recordação da vitória do Imperador bizantino Flávio Heráclio Augusto sobre os Persas (630) e o resgate das relíquias da cruz de Cristo que foram levadas processionalmente para Jerusalém.
De origem caldeia, a cruz parece ter começado por ser símbolo do deus Tamuz. O seu uso como instrumento de tortura e morte, ao que parece, começou na Pérsia. Foram, contudo, os romanos que a usaram e divulgaram no Ocidente, com a mesma finalidade e como sinal dissuasor (perante tal sentença, ninguém ousaria cometer crimes que reclamassem esse castigo). É nesse enquadramento que ela é usada no processo de Jesus. Por ser sinal de morte infame, raramente foi usada na iconografia do primeiro século do cristianismo. Contudo, Tertuliano, no seu livro De Corona (Sobre a Coroa), escrito em 204, refere que já era um costume dos cristãos fazer na fronte o Sinal da Cruz.
Quando usada como adorno de pescoço, peça de mobiliário ou amuleto, a cruz não passa de um objeto decorativo ou até supersticioso. Para nós, crentes, independentemente da sua configuração (cruz latina, grega, celta, heráldica, etc.), é sempre um sinal. Por isso, fazemos uma cruz na fronte (pensamentos), nos lábios (palavras), no coração (sentimentos) e uma outra mais ampla, a abarcar todo o nosso ser e a sintetizar as anteriores.
Enquanto sinal, a cruz começa por ser, para os discípulos de Jesus, metáfora das exigências, da dureza da vida e do seguimento do Mestre: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).
Vista pelo lado de Jesus, é sinal pascal de glorificação/exaltação, trono da sua glória; olhada pelo lado dos discípulos, é instrumento e sinal de salvação e vitória, de amor e de esperança. Se Gianfranco Ravasi lhe chama o “compêndio da Páscoa de Cristo” (Secondo le Sritture, Anno B, p. 386), podemos também afirmar que se trata também do compêndio da vida dos seus discípulos.
Vencendo nela a morte, Jesus foi por ela exaltado à glória do Pai, transformando-a assim em “árvore da vida”, uma simbologia já antecipada pela elevação da serpente no deserto (Nm 21, 8-9), facto que o livro da Sabedoria interpreta deste modo: “Para sua correção, foram atribulados por pouco tempo, mas tinham um sinal de salvação para lhes recordar os mandamentos da tua Lei. Quem se voltava para ele era curado, não pelo que via, mas por ti, salvador de todos” (16, 6-7).
A cruz é também sinal de identidade e pertença. Assim se identificam os cristãos e manifestam ser discípulos de Cristo, mesmo se a cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 1, 23). De facto, “a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que se salvam, para nós, é força de Deus” (1 Cor 1, 18). Por causa deste sinal, muitos discípulos de Jesus sofreram, desde os começos da Igreja até hoje, o mesmo suplício que o seu Mestre.
Na sua composição, a cruz apresenta duas hastes: a vertical, que se presta a ser lida em perspetiva descendente (encarnação) e ascendente (exaltação), liga a terra aos céus, a humanidade a Deus; e a horizontal (patíbulo) que nos liga uns aos outros, abraçados e salvos por Jesus. Na verdade, a importância da cruz advém-lhe daquele que nela foi pregado e da salvação que, nela, nos alcançou.
Na Solenidade da Exaltação da Santa Cruz, há uma semana celebrada, veio-me à mente o pedido orante de Antoine de Saint-Exupéry: “Senhor, liga-me de novo à árvore a que pertenço. Não faz sentido que eu permaneça só”. O que faz sentido é que a assim a reconheçamos e saudemos: “Salvé, ó cruz, ó árvore da vida”.
Autor: P. João Alberto Correia