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Salvar os rinocerontes e leões desta “Terra bela”

  1. Torre Bela, outra vez). Dias antes do Natal, o nosso País ficou muito justamente escandalizado com aquilo que de início pareceu ser um massacre, uma matança sistemática de 540 exemplares de caça grossa (veados, gamos e javalis) praticada por “caçadores” (melhor diria, “exterminadores”), numa gigantesca herdade “de caça”, no norte do concelho de Azambuja. Mais concretamente no triângulo formado pelas povoações de Alcoentre, Manique do Intendente e Aveiras de Cima. É a cerca de 15 kms. a NW do Tejo e menos ainda a oeste do limite com o concelho do Cartaxo, já no distrito de Santarém. O concelho de Azambuja ainda pertence a Lisboa e a dita herdade passa por ter 1.000 hectares murados (equivalente a um rectângulo de 5 kms. por 2 kms.), a que se somam mais 600 hectares (3 kms. por 2 kms.) não murados. Uma área tão vasta mas degradada tinha, antes do 25 de Abril de 74, certamente um uso agrícola múltiplo. Desconheço os pormenores, mas durante a “Reforma Agrária” passaram-se por lá “cenas acentuadamente subversivas”, muito ao gosto daquela época, tão idealista e tão desastrosa para o futuro de Portugal como pequena potência mundial que até então era (e por isso mesmo, invejadíssima…). Fez-se até um longo filme documentário dos acontecimentos, talvez porque esta “ocupação” era a norte do Tejo e a menos de 40 kms. de Lisboa

  2. Parece que está prevista uma gigantesca instalação fotovoltaica para lá). Ao contrário de barragens e ventoinhas eólicas (ambas tão destrutivas da paisagem), eu nada tenho contra a exploração da energia solar (e da das ondas do mar, tão mal estudada ainda), neste país de sol e com 700 kms. de costa. Porém, tudo depende do tamanho e localização do “parque” solar e da eficácia da produção. É claro que uma instalação na totalidade (ou até na quarta parte que seja…) duma área como a da Torre Bela, já seria muito impactante na paisagem. Mas não sou contra… Só para dar uma ideia da ganância dos investidores, eles andam a procurar, ao que parece, fazer projecto idêntico algures perto de Moncorvo, no nosso ainda “reino maravilhoso transmontano”. Daí que, entre Torre Bela ou Tras-os-Montes, devamos optar decididamente por Torre Bela… Até porque, os veados e gamos foram introduzidos.

  3. Olival intensivo e o lítio, as outras ameaças). Que os antigos pinhais, sobreirais e carvalhais de Portugal se têm criminosamente transformado em eucaliptais, já não é segredo para ninguém. Porém, regista-se o avanço de novas infestantes. Trata-se do dito “cedro do Bussaco”, que não passa duma conífera importada das montanhas do México. E sobretudo, do olival e amendoal intensivos, que infestam agora, quer a “Terra quente” transmontana. Quer imensas áreas alentejanas, perto do impactante e tão deslocado “mar interior”, criado pela albufeira da foz do rio Alqueva, no pobre do Guadiana, tão do agrado dos citadinos incultos e de não poucos lavradores locais. Os quais hoje, ou estão emigrados ou reformados. E venderam as terras aos espanhóis. Quanto à nova e ameaçadora mineração do lítio (para baterias), ela paira sobre todo e qualquer espectacular fraguedo, que ali estava sossegado há milhões de anos a embelezar a paisagem e fica (se o Povo deixar) à mercê do inculto Capitalismo Internacional.

  4. Explosão demográfica, desflorestação e “mass extinctions”). Vem-se assistindo, desde o início do passado séc. XX, a um aumento exponencial (agravado desde 1950) da população dos países em vias de desenvolvimento. Tal facto tem causado uma contínua desflorestação, por todo o planeta. O que acarreta extinções de incontáveis espécies animais e pressão sobre muitas outras. Adivinha-se, se não houver acção imediata das “grandes potências”, um futuro sombrio e indesculpável. Espécies nobres como o tigre, o jaguar, o puma, o leopardo, o leão, os 2 rinocerontes, o búfalo, a girafa, muitas espécies de macacos, de antílopes e de aves estão já hoje, em risco de sobrevivência, num mundo em que quem manda, é muito inculto e poderoso; mas só quer é brincar com computadores e telefones móveis; e enriquecer vendendo “ tecnologia”.

  5. Colonização invertida e os números da “explosão demográfica”). É inegável que desde há décadas a migração de populações não se faz de norte para sul, mas do sul para norte. Quer dizer, não são os europeus que vão habitar e civilizar outras regiões, mas os pobres dessas regiões que têm autorização de colonizar a Europa e a América do Norte. Assim, a população do Mundo, em 1900, era de 1,6 mil milhões e hoje é de 7 mil milhões (quadruplicou em apenas 120 anos!). A Europa e América do Norte “definham”. A Europa (com Rússia) tinha 400 milhões (em 1900) e hoje terá mais de 600, “apenas”. Em contraste, a Ásia tinha 937 milhões (em 1900) e hoje terá mais de 4.000 milhões (4 vezes mais). A África tinha 120 milhões (em 1900), 250 (em 1950) e hoje caminha para os 500 milhões (4 vezes mais). A América do Sul salta dos 40 milhões, apenas (em 1900) para mais de 350, hoje.

  6. As extinções a nível mundial preocupam mais que os abusos em Torre Bela). Em Torre Bela, toda a “caça grossa” (outrora, animais selvagens) foi introduzida. Nos trópicos, não. Aí são os habitats que são destruídos pelo excesso de população ou pelos interesses capitalistas. Desaparecendo os “habitats”, extinguem-se as espécies que lá moravam. Um crime que as pessoas cultas da Europa permitem, com a sua inqualificável inacção.


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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5 janeiro 2021