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Religião à medida

1. À morte de Salomão, o reino que tinha herdado de seu pai David foi dividido em dois. O Reino do Norte, liderado por Jeroboão, e o Reino do Sul, onde ficava Jerusalém. Receoso de ficar prejudicado pelo facto de as pessoas continuarem a ir rezar ao templo de Jerusalém, onde se encontrava a Arca da Aliança, sinal da presença de Deus entre o povo, Jeroboão decidiu criar uma religião de harmonia com os próprios interesses (I dos Reis, cap. 11 e 12). A atitude de Jeroboão não foi caso único, ao longo da história. Recordo, por exemplo, o que fez Henrique VIII, pai do Anglicanismo, por não conseguir do Papa Clemente VII a anulação do casamento com Catarina de Aragão a fim de casar com Ana Bolena. 2. Verifica-se haver pessoas que, assumindo atitudes em desarmonia com o pensamento e as normas disciplinares da Igreja, pretendem que a Igreja altere a sua doutrina e as suas normas disciplinares. Em vez de mudarem, pretendem qua a Igreja mude. Que se redija um novo Evangelho e se reelabore o Catecismo, pondo-os em conformidade com o seu comportamento. E parece haver quem deseje fazer-lhes a vontade. Quem se apresse a alterar os sinais de trânsito, a fim de que deixe de ser considerada transgressão a ida por caminho errado. 3. No mundo paganizado em que vivemos é bom lembrar que, hoje mais que nunca, ser cristão é ser diferente dos que decidiram não seguir Jesus. É vontade de Jesus que os seus discípulos saibam estar no mundo sem serem do mundo (João 17, 14-15). Deseja que, no ambiente em que vivem, sejam sal e luz (Mateus 5, 13-16). Compara o Reino de Deus ao fermento que leveda a massa (Lucas 13, 20-21). O sal é diferente dos alimentos, o fermento é diferente da massa, a luz é diferente das trevas. Não são os alimentos que mudam o sal. Não é a massa que altera o fermento. Não são as trevas que transformam a luz. E advertiu os mesmos discípulos para as incompreensões de que serão vítimas se lhe quiserem permanecer fiéis (Mateus 10, 15 sgs; 24, 9-11). 4. O discípulo de Cristo deve saber viver num mundo pagão sem se paganizar. Sem ter a preocupação de ser igual aos que não comungam da sua fé. Ser cristão é não ter medo de ser diferente. Sem qualquer espécie de triunfalismo, naturalmente, o cristão age de harmonia com os seus princípios e as suas convicções. Respeita aos outros o direito de o não seguirem mas exige que lhe respeitem o direito de poder agir, privadamente e em público, de harmonia com a sua fé, que não prejudica ninguém. 5. Ser cristão é respeitar toda a gente. Mas é também, com todo o respeito, não dar ouvidos a quantos, não pertencendo à Igreja ou vivendo à margem dela, se arrogam o direito de dar ordens à mesma Igreja e de lhe dizer como se deve conduzir. Pretendem, com todo o atrevimento de que são capazes, mandar na casa do vizinho, ora ridicularizando, ora até insultando! 6. Quando Jesus anunciou a instituição da Santíssima Eucaristia houve quem o abandonasse por julgar duras as suas palavras. Sem ceder uma vírgula no que tinha dito, Jesus voltou-se para os que ficaram e perguntou: também quereis ir embora? (João 6, 60-69). Não mudou o discurso para evitar deserções. 7. Ser cristão é ser construtor de unidade, conforme o desejo de Cristo (João 17, 20-23). Unidade que não é sinónimo de uniformidade, mas respeita a legítima diversidade. É um erro, porém, tentar construir a unidade cedendo em questões essenciais. Mantém-se válido o princípio: unidade no essencial, liberdade no acidental, caridade em tudo. Mas a caridade não exige que, para não magoar quem pensa de maneira diferente, se chame branco ao que é negro como o carvão. Entre a quantidade e a qualidade há quem opte pela quantidade, sem receio de cair em contradição e de ceder em questões que deveriam permanecer intocáveis.
Autor: Silva Araújo
DM

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22 fevereiro 2018