1.Por causa do coronavírus, os templos foram obrigados a fechar e os crentes, mesmo em dia de Páscoa, ficaram em casa, lembrando os primeiros tempos do cristianismo, embora por razões diferentes. As famílias começaram a descobrir que, neste momento, o Lar é o seu templo seguro… E não lhes resta outra opção senão serem os pais de família a presidir à sua acção de graças. Ser homem ou ser mulher a fazê-lo, é indiferente e secundário, como no tempo da igreja doméstica primitiva. Mas, com uma diferença: essas famílias celebravam no Lar a sua eucaristia… Entretanto, o clero vai improvisando formas de comunicar virtualmente com os cristãos, transmitindo a celebração ritual da Missa. É positivo que o faça, para não haver um vazio, à espera que tudo regresse à normalidade. Só que ninguém sabe ainda quando nem como. Entretanto, o jornal Público adianta que as medidas de distanciamento social podem ser necessárias até 2022. E da DGS o que se ouve é que é prematuro pensar nisso e que nada voltará a ser como dantes… Até que haja segurança de não haver contágio, pelo menos os mais velhos vão continuar no seu Lar.
2.A presença virtual na celebração ritual da Missa que o clero está a ensaiar é positiva, mas é preciso ter consciência de que ela tem um alcance limitado no tempo e na capacidade de comunicar e gerar espírito de grupo. Presença virtual não é a mesma coisa que presença real. O virtual representa a realidade, mas não é a realidade… Nada pode substituir a presença real nem o seu poder íntimo de comunicar, sobretudo quando se trata de algo que diz respeito à intimidade da pessoa, como é próprio da expressão religiosa. A intimidade e a coesão de um grupo precisam da presença real. A proximidade física faz parte da nossa maneira de ser e da nossa maneira de comunicar afectivamente. Isto quer dizer que, se o tempo de privação do modo natural de estar juntos for demorado, as famílias tenderão de modo a implicar-se e agir ou a afastar-se e desistir. Conforme o seu estilo pessoal e o grau das suas convicções. Uns sentir-se-ão mais sós e tenderão a afastar-se mais; outros reagirão no sentido de serem eles próprios a organizar a sua vida dentro da célula familiar, a terem um papel mais activo e a comunicar com outros em situações semelhantes.
3.Nos organismos vivos, as células funcionam como unidades de vida, geram energia no seu funcionamento e agregam-se para formar os tecidos de um órgão com funcionalidade própria; de modo análogo, o tecido do corpo social da Igreja precisa de células activas e com autonomia que comuniquem entre si e procurem organizar-se em função de um objectivo comum, embora cada uma possa ter seu estilo pessoal. O que não dispensa uma liderança no grande grupo. Só que a iniciativa tem de partir delas, não pode vir de cima delas. A célula familiar precisa de ter a sua dinâmica de vida, que não pode ser ignorada nem imposta. A dinâmica de um grupo não funciona assim. Os tempos são de mudança e de participação.
4.Admito que, neste momento, a maioria das famílias retidas em casa ainda se não deram conta da exigência de mudança que esta emergência lhes traz e que estejam sem saber o que fazer. Ninguém estava preparado para esta emergência. Talvez nem lhes passe pela cabeça que, algum dia, possam ser elas a celebrar a sua eucaristia doméstica; mas, a tendência vai nesse sentido, embora o peso da tradição seja muito grande. Aqui se verá se a dinâmica da realidade é mais forte do que o peso da tradição. Neste momento, tudo aponta para que a tendência seja que a acção da Igreja se venha a centrar mais na Família e só a partir daí se criem modelos de organização e de acção, que o planeamento pastoral deixe de ser centralizado e à margem da família e se venham a criar novos modelos de autonomia e de partilha de responsabilidade.
Os modelos de liderança das comunidades terão de ser repensados. Um dos factores que mais contribuiu para a imaturidade dos cristãos, como pessoa e como grupo, para além do centralismo do sistema, foi a mentalidade de chefe que se preocupa mais com a unidade na obediência e gera passividade. A confusão entre chefia e liderança tem dificultado o crescimento das comunidades. Nomeavam-se chefes para os agrupamentos de cristãos, mas raramente o chefe nomeado tinha qualidades de líder e as comunidades tinham a ver com isso. Porque o chefe apenas manda (e tende mesmo a restringir o crescimento pessoal para poder continuar a mandar), enquanto o líder agrega, organiza e ajuda a crescer...
(Continua)
Autor: M. Ribeiro Fernandes