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Regresso à casa de partida

A expressão, muito comum num determinado jogo de tabuleiro, aplica-se na íntegra à situação de confinamento em que o país entra a partir de hoje. Voltámos a fechar, parcialmente, o país. E neste jogo de estratégia, entre o fechar as portas ao vírus (em nome da saúde pública) e a necessidade de manter algumas atividades comerciais, sociais, desportivas, escolares (em nome da necessidade e saúde mental) ninguém fica a ganhar, mas muita gente fica e ficará a perder.

A situação é difícil. O problema da pandemia e da pressão que provoca no sistema nacional de saúde é grave. Exige medidas drásticas. Tudo o que fosse verdadeiramente decidido, pelo governo e por quem de direito, seria sempre sujeito a críticas. No entanto, há aspetos relacionados com as medidas a aplicar que me deixam perplexo e com muitas dúvidas. Reconheço que não sou especialista nestas matérias. Mas, tenho a convicção que o tempo é determinante e o que está em causa são os contactos sociais descontrolados. Mas, não seria melhor fechar tudo, por menos tempo, em vez de fechar parcialmente, por muito mais tempo? Desportivamente, estas medidas parciais adotadas para este confinamento não conseguem uma abrangência para todos os casos. Por exemplo, os clubes de 1ª divisão, em algumas modalidades, que não possuem instalações próprias e que tem de utilizar instalações alugadas ou camarárias, se a entidade gestora decide fechar as portas à sua utilização, como podem os clubes cumprir planos de preparação para a competição? Como podem fazer os jogos? Vão jogar sem treinar? Estas medidas criam injustiças, têm incoerências e sem margem para dúvidas, fomentam desigualdades e prejuízos! Essencialmente, porque as próprias federações são insensíveis a todos estes casos e dificuldades.

As medidas mitigadoras adotadas pelos clubes são exigentes e dificilmente é no ambiente desportivo que a propagação do vírus acontece. As consequências de bloquear as atividades desportivas são de uma dimensão incalculável. Porém, já são visíveis muitas consequências imediatas. Por exemplo, a diminuição drástica do número de praticantes desportivos; o abandono precoce por falta de competição e, agora, dos treinos; a insustentabilidade financeira dos clubes em criar e manter projetos desportivos, com graves problemas para treinadores, fisioterapeutas e atletas que dependem destas verbas (apesar de muitas vezes diminutas) para fazer face à vida diária; o despedimento massivo de recursos humanos, por falta de liquidez financeira (como está a acontecer no Sporting CP), entre muitas outras. A verdade é que se vai agravar a crise económica e social.

Parar é morrer”, como diz o povo, mais uma vez assertivamente, e neste caso reflete e retrata o que poderá acontecer a muitos dos projetos desportivos, na formação e nos seniores. Pessoalmente, preferia adotar medidas mais drásticas por menos tempo, do que medidas mais suaves, prolongar este martírio social por muito mais tempo e não ter que voltar à casa de partida mais vezes, porque o nosso país “não vai aguentar”.


Autor: Carlos Dias
DM

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15 janeiro 2021