Embora tendo passado cerca de 16 meses após o falecimento de Jorge Eduardo da Costa Oliveira, natural de Monsul – Póvoa de Lanhoso, e não o tendo feito na altura própria, não posso deixar de prestar homenagem a um exemplo de cidadania, com um percurso de vida excecional, como economista e dirigente público, quer em Portugal, quer em Angola.
Já no Liceu Sá de Miranda, em Braga, se distinguiu, sendo conhecido pelo “Jorginho dos vinte”, prosseguindo com uma carreira assinalável, tendo desempenhado diversas funções docentes e de investigação, vindo a ocupar um alto cargo no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Em 1961, após os acontecimentos dramáticos em Angola, foi para ali destacado, onde veio a desempenhar funções importantes, salientando-se nas áreas do Comércio, da Indústria Transformadora e da Inspeção de Atividades Económicas.
Em 1964 assumiu a pasta da Economia no Governo de Angola e em 1969 a do Planeamento e Finanças, tendo regressado a Portugal em 1973, por discordar da prática conservadora e sem abertura para a governação política com autonomia. O governo da Metrópole não quis compreender as mudanças que se estavam a operar nas colónias do continente africano, direcionadas para a sua independência, após a Segunda Guerra Mundial.
A sua visão política e de administração pública ia no sentido dos Altos-Comissários da República Norton de Matos e Vicente Ferreira, sediados entre 1921 e 1928 no Huambo (Nova Lisboa, a futura capital de Angola), que ao tempo começaram a preparar as estruturas governativas em direção à autonomia progressiva de Angola, acabando com os Governadores-Gerais.
Estas políticas não tiveram seguimento, voltando-se novamente à figura do Governador-Geral, sendo de destacar a visão que teve mais tarde o General Venâncio Deslandes, o qual acabou, também, por regressar a Portugal, por discordância da política seguida pelo Governo Central.
A visão que Costa Oliveira teve para Angola, preparando-a para o futuro, foi verdadeiramente notável e com ele houve um enorme impulso para o desenvolvimento económico em diversas áreas, salientando-se o planeamento para o crescimento acelerado do comércio e da indústria, ao ponto de Luanda chegar a ser a segunda cidade do mundo, a seguir a S. Paulo (Brasil), que ao tempo mais crescia e se desenvolvia.
O economista Costa Oliveira tornou-se um vulto de referência nacional em Angola, ao tempo Província de Angola, pela sua visão económica, pragmático nas decisões governativas, como cidadão de ideologia firme e aberta, com espírito íntegro na sua governação e na sua forma de estar, com sentido de serviço, tendo o condão de perspetivar o futuro ao serviço de Angola. Foi referido no preâmbulo do livro de Sócrates Dáskalos que “os importantes resultados obtidos fizeram de Jorge da Costa Oliveira, a seguir a Norton de Matos, o maior e mais decisivo agente de transformação da economia angolana deste século”.
Chegado a Portugal desempenhou cargos de alta representatividade no Ministério do Ultramar, vindo a ocupar, desde 1980 até à sua aposentação em 1992, o lugar de Presidente do Instituto para a Cooperação Económica (ICE) sob a tutela dos Ministérios dos Negócios Estrageiros e das Finanças.
Quando regressei a Portugal, após ter permanecido em Angola entre março de 1960 e dezembro de 1977, tive o privilégio de, a partir de 1980, trabalhar com Costa Oliveira, em diversas missões promovidas pelo ICE, dentro do IPE – Investimentos e Participações Empresariais, S.A., a cujo sub-grupo Sociedade Portuguesa de Empreendimentos, S.P.E., S.A. pertencia e à qual estive ligado, assumindo funções de assessoria, gestão e administração.
Em missões de natureza geológico-mineira, desempenhadas em diversos países de África – Gabão, República Centro Africana, Alto Volta, Gana, África do Sul, etc., e nos Estados Unidos, em Denver e nas Montanhas Rochosas, e na América do Sul – Brasil e Colômbia, tivemos uma ligação muito próxima, que nos permitiu conhecer a grandeza e integridade deste grande português.
Com enorme sentido de economia diplomática, vincada pelo respeito sincero de valores entre estados, abordando sempre os assuntos com grande serenidade, presença de espírito incontornável e visão futura das economias emergentes, o economista Costa Oliveira deixou em Angola um legado que infelizmente os governantes da Metrópole não souberam percecionar ou antever no caminho da independência inevitável de um dos países potencialmente mais ricos do continente africano.
O eminente economista e governante foi autor de dezenas de obras e estudos económicos sobre os países africanos de expressão portuguesa e recebeu diversas condecorações nacionais e internacionais.
São cidadãos como este que Portugal precisa para voltar a ter a projeção e a grandeza dos períodos áureos da nossa história.
Autor: Bernardo Reis