1. Principiou ontem o tempo litúrgico da Quaresma.
É um tempo privilegiado de revisão de vida e de renovação moral e espiritual à luz da Fé.É tempo de renúncia e de partilha.É caminho para a Páscoa. Existe em função da Páscoa. Se não houvesse Páscoa não existia Quaresma.
A carta circular da Congregação para o Culto Divino «Preparação e Celebração das Festas Pascais» diz: «o ápice de todo o Ano Litúrgico resplandece na celebração do Sagrado Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor, preparada na Quaresma e estendida com júbilo por todo o ciclo dos cinquenta dias sucessivos».
2. A Quaresma deve ser tempo de conversão a um novo modo de viver, de pensar, de agir. Deve ser tempo de renovação e de penitência pela prática do jejum e da abstinência, acompanhados da caridade. Deve ser tempo favorável para renovar a caminhada de conversão e fortificar a fé. Deve ser tempo de solidariedade e partilha com as famílias mais pobres.
Deve ser um tempo de abrir o coração a Deus e escutar todos os que sofrem. Deve ser tempo de pensar que nem só de pão vive o homem e que a vida só tem sentido à luz da eternidade. Deve ser tempo de dar mostras de uma caridade autêntica e generosa. Deve ser tempo de reflexão para que encontremos o que é essencial na vida e nisso nos concentremos.
Deve ser tempo de fazer silêncio interior para um encontro mais a sério com Deus e connosco próprios.O encontro com Deus acontece através da oração mais intensa, mais profunda e mais íntima.A reflexão leva ao encontro connosco, o que permite que nos vejamos por dentro, repensemos a vida, afiramos critérios, que nos vejamos «aos olhos de Deus».
3. Somos, na Quaresma, convidados a deixar ídolos, que um exame de consciência ajuda a identificar.Podem ser apegos desordenados a pessoas ou coisas.Podem ser o orgulho, a soberba, a vaidade, a auto-suficiência, o triunfalismo, o desejo de poder, a violência. Podem ser a sede doentia de afeto e de atenções que levam a exigir que os outros se centrem em nós.Podem ser o dinheiro, os bens de consumo, o comodismo exagerado.
4. Somos convidados a viver a Quaresma como tempo privilegiado para a oração, o jejum, a caridade.Como tempo para a mudança em três setores:
na relação com Deus, através da oração mais intensa, da maior atenção à Sua Palavra, da mais assídua e atenta participação na Eucaristia, da meditação da Via Sacra, por exemplo;
na relação com os outros, mediante o exercício concreto da caridade, de gestos de serviço, da prática da esmola, das várias formas de solidariedade, de uma maior disponibilidade;
na relação connosco mesmos, o que passa pela conversão pessoal e pelo jejum de tudo o que nos impede de viver cada vez mais de harmonia com o Evangelho.
5. A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa, e esta consiste na passagem da escravatura à liberdade.
É tempo de refletirmos sobre aquilo a que nos deixámos prender e de que temos necessidade de, corajosamente, nos libertar.Neste sentido, a preparação para a Páscoa também passa pela celebração cuidada do Sacramento da Reconciliação, onde o propósito de emenda é uma atitude fundamental. Sem isso não há conversão.
Eusébio de Cesareia, no ano 323, dizia que a Quaresma «é caminho semelhante ao dos judeus pelo deserto; é tempo de austeridade e vigilância; é a viagem de vocação celeste, de ascese, de leitura da Palavra de Deus e de oração. As semanas da Quaresma evocam, ora o esforço da vida presente, ora a luta ascética».
O Catecismo da Igreja Católica (n.º 1 438) considera a Quaresma tempo particularmente apropriado para exercícios espirituais, liturgias penitenciais, peregrinações em sinal de penitência, privações voluntárias, como o jejum e a esmola, a partilha fraterna (obras caritativas e missionárias).
Autor: Silva Araújo
Quaresma
DM
15 fevereiro 2018